Terceirazação 01

- Fábio Castilhos

Postado em 27/04/2015

Em uma conversa com uma amiga, ela disse que não conseguiria ser feliz se não fosse com um Fulano de Tal específico lá. Na mesma semana, começaram os debates sobre as regras de terceirização do trabalho no Brasil. Como uma coisa leva meu raciocínio de um canto a outro do universo, rapidamente fiquei com a sensação de que nós – nós brasileiros, nós quase-velhos, nós meio-jovens – fomos criados – e estamos criando – para que os outros façam nossas tarefas mais básicas. Vivemos em uma época em que delegar nossas responsabilidades a outros parece natural.

Terceirazação 02As consequências diretas da Lei da Terceirização são o benefício ao empregador que poderá terceirizar algum serviço sempre que puder fazer alguma economia, e a desvalorização do valor pago ao empregado terceirizado. O dono de uma empresa gasta menos ao terceirizar. A empresa ou cooperativa contratada, que visa ao lucro e precisa dele, pagará aos seus funcionários um valor mais baixo que o de mercado. O funcionário terceirizado, por mais qualificado que seja, não tem razões – trabalhistas, carreiristas, legais – para “vestir a camiseta” da empresa contratante. Enfim, todos perdem; uns mais que outros.

O debate e a votação para que seja aprovada a terceirização de todos os serviços leva gerações mais antigas, que viveram as agruras dos problemas trabalhistas. Há toda a poesia e o romance sobre as garantias acerca daquilo que é seu trabalho, fruto de seu suor, sua dedicação a anos de empresa. No entanto, as gerações mais atuais, que preferem ver qualquer tarefa recompensada o mais rápido possível – possível doutrinamento advindo de anos de vídeo game – entrarão no mundo adulto com a ideia de que o sucesso profissional vem tão rápido quanto um sinal de internet ou uma mensagem de celular.

Já terceirizamos nossa vida faz tempo. Pais delegam suas responsabilidades à Escola, para que a personal mother dê ombro ao aluno que se sente desamparado, e o personal father lhe dê os conselhos adequados para tratar com as pessoas. Nossa felicidade depende de estar com aquela pessoa ideal, de passar naquele concurso, de ganhar aquele salário. Terceirizamos nossa vida porque responsabilizamos os políticos pela corrupção no Brasil, mas esquecemos de termos lhes dado nosso voto. Terceirizamos nossa vida, pois qualquer terceira pessoa é mais importante, mais capaz e mais responsável que eu. Ele. Ela. O outro. Alguém. Qualquer um.

De tanto delegarmos nossa vida para as terceiras pessoas que nos cercam, chegamos ao ponto da oficialização. Oficialize-se a terceirização do desejo e da conquista com aplicativos de paquera; terceirizemos as novidades e o contato com nossos amigos com a ostentação da rede social; da nossa carreira e do nosso bolso com a lei.

Façamos a escolha final e desumana: terceirizemos o livre-arbítrio.

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