Hip_Hop 06

- Matheus Soares

A cultura Hip-Hop originou-se nas periferias do sul do Bronx, em Nova Iorque. Este bairro passou por várias mudanças radicais nos anos 60, que o desvalorizavam. A classe média que consistia em Italianos, Alemães, Irlandeses e Judeus optava por mudar-se por causa da qualidade decrescente de vida. Por causa da pobreza crescente e os problemas causados por crimes, drogas e desemprego aumentaram.

No ano de 1968, sete adolescentes que se nomearam “Savage Seven” – que significa “Sete Selvagens” – começaram a aterrorizar o bairro, criando assim, a base para algo que dominaria o Bronx durante os próximos 6 anos. Em pouco tempo proliferaram em todo o bairro, em todas as ruas e esquinas.

Black Spades

Black Spades

Com o decorrer do tempo as atividades criminosas das gangues alcançaram seu auge, mas no início da década de setenta já se verificava algum declínio dessas atividades. Isto foi motivado pela intensa rivalidade entre as gangues, pelo seu envolvimento em crimes graves como também o tráfico de drogas. Integrar uma gangue não significava a possibilidade de uma vida melhor e muitos membros procuravam seguir outros caminhos. Os tempos estavam mudando e as pessoas na década de 70 estavam querendo apenas se divertir, procurando por festas em clubes para dançar e curtir a música cada vez mais e mais.

Afrika Bambaataa

Afrika Bambaataa

Por volta de 1974, a ideia de transformar o negativismo das gangues em energia positiva partiu de Afrika Bambaataa (ex-membro de uma das maiores gangues – a “Black Spades”) que perdeu seu melhor amigo em uma guerra de gangues, no tempo que fizera parte de uma. Cansado disso, pensou em fazer algo para mudar esta situação. Havia os praticantes de Djing que estavam fazendo bastante sucesso na época, os Mcing que rimavam nas esquinas entre conhecidos, dançarinos de rua e escritores, alguns já estavam ligados com a cultura Hip-Hop de certa forma. Bambaataa fez a junção de todos eles e os usou para espalhar sua mensagem, “lutar com criatividade, não com violência!”. Com a integração dos 4 elementos da cultura Hip-Hop, a vontade de competir era geral, empurrando todos permanentemente a melhorar e ser o mais criativo possível. Assim, aos poucos, as pessoas estavam mais preocupadas em mostrar suas habilidades da melhor forma possível nas festas e se afastando da vida do crime e das drogas.

“Nós podemos amar a cultura Hip-Hop, mas se não tivermos conhecimento de como podemos modificar nossa situação, nossa comunidade e nosso espaço e aprendermos a respeitar nossos ancestrais, seremos sempre escravos. Ame a você mesmo, ame seus ancestrais, ame seu povo e tente fazer algo por você, pelos outros e pelo seu povo. Mas, principalmente, respeite a Mãe Terra!” – Afrika Bambaataa

Cena do filme Beat Street  - 1984

Cena do filme Beat Street – 1984

Aqui no Brasil o movimento teve início na década de oitenta e o cenário principal foi a cidade de São Paulo. O primeiro elemento a tornar-se conhecido por integrar o Hip Hop, foi o break, por intermédio, em grande parte, dos filmes: Beat Street e Flashdance. O primeiro, produzido por Sidney Portier em 1984, mostrava a cultura Hip Hop como um estilo de vida, e possuía participação de dançarinos famosos como os da New York Breakers.

Os primeiros dançarinos de break reuniam-se na Estação São Bento de metrô em São Paulo e ali entre palmas ritmadas, batidas em latas e beat box criavam-se os primeiros MC’s de Rap que logo criariam um território próprio, a praça Roosevelt, berço da primeira posse brasileira, o Sindicato Negro. As primeiras letras de Rap eram bem mais ingênuas dos que as atuais, predominava o chamado “Rap estorinha”, sem muita consciência crítica. Com a crescente organização dos dançarinos de break e rappers, surgem oportunidades de gravar músicas em coletâneas históricas do Rap Nacional como: “Ousadia do RAP”, pela Kaskatas; “O Som das Ruas”, primeiro LP lançado pela Chic Show; “Situation Rap”, pela FAT Records; “Consciência Black” – que lançou um dos mais famosos grupos do Rap nacional, os Racionais MC’s – e da Zimbabwe, em 1988, seguidos pelo famoso “Cultura de Rua”, da Eldorado. Muitas dessas gravadoras surgiram das equipes de som que organizavam os bailes black desde a década de 70. Uma das primeiras letras de Rap que abordava um tema crítico-social foi “Homens da Lei” de Thaide e DJ Hum, que falava sobre a violência policial em São Paulo, em Osasco e ABC paulista.

Já no final da década de 1980, os rappers começaram a produzir letras conscientes, versando sobre o racismo, a pobreza, as injustiças sociais. Coincidia com este processo a enorme procura dos rappers por leituras que ajudassem no entendimento dos problemas que vivenciavam: O antropólogo Silva em seu artigo “Arte e Educação: A Experiência do Movimento Hip Hop Paulistano” e no livro “Rap e Educação, Rap é Educação”, organizado por Elaine Andrade. Nesse momento os rappers enfatizaram que o “autoconhecimento” é estratégico no sentido de compreender a trajetória da população negra na América e no Brasil. Livros como ‘Negras Raízes’ (Alex Haley), ‘Escrevo o que eu Quero’ (Steve Byko), biografias de Martin Luther King e Malcolm X e lutas políticas da população negra, passaram a integrar a bibliografia dos rappers.

Cartaz do filme: Faça a coisa certa

Cartaz do filme: Faça a coisa certa

A influência de grupos norte-americanos como NWA e Public Enemy, filmes de Spike Lee como “Faça a Coisa Certa” e Malcom X, ajudava os rappers brasileiros neste processo também, isto em São Paulo, Brasília, Recife e Porto Alegre. Por outro lado, no Rio de Janeiro, berço dos gigantescos bailes blacks de soul na década de 1970, o “Miami bass” dominou o Rap carioca, com suas batidas e versos curtos, usualmente com conotações sexuais. Alguns “miamis” cariocas possuem letras que refletem sobre a pobreza, enquanto outras exaltam a vida bandida dos soldados e traficantes dos morros e suas respectivas organizações. Erroneamente chamado de funk carioca, o “miami bass” do Rio, de música marginal virou produto da mídia, invadindo as boates da elite carioca. Posteriormente alguns rappers, como MV Bill, desenvolveram também o Rap consciente no Rio de Janeiro.

Foi na década de 1990 que o Rap de improviso ou “freestyle” se desenvolve com toda força no Brasil com a formação da Academia Brasileira de Rimas. Nas batalhas de improviso entre MCs, as rimas vão sendo feitas na hora, sobre algum assunto presente no ambiente, ou sobre qualquer coisa. No Brasil há vários mc’s que fazem freestyle como: Mc Marechal, Emicida, Gil, Aori, entre outros.

Por volta de 1995, alguns grupos de Rap destacavam-se no cenário nacional, os Racionais MC´s da zona sul de São Paulo, com letras sobre a condição do negro no Brasil e o crime na favela; o MRN (Movimento e Ritmo Negro), também de São Paulo, com versos sobre o cotidiano da vida na periferia, seus problemas, seus personagens e situações; o DMN (Defensores do Movimento Negro), grupo paulista fortemente politizado com letras de autovalorização negra; o cantor de Rap G.O.G, de Brasília, mostrava e mostra que é possível fazer uma grande reflexão sobre a realidade através do Rap; Faces do Subúrbio, de Recife, que misturavam Rap com guitarras e embolada; Sistema Negro, de Campinas; Potencial 3 e continuando suas carreiras, Thaide e DJ Hum.  Em termos musicais os rappers brasileiros são bastante influenciados por artistas de outros estilos como Jorge Ben, Tim Maia, Gerson King Combo, Marvin Gaye, Curtis Mayfield, James Brown, além da forte influência da “malandragem consciente” do samba de morro de Bezerra da Silva, Dicró, Moreira da Silva, Leci Brandão e Originais do Samba.

”A cultura hip-hop deu rumo a minha vida. Não consigo me imaginar fazendo algo que não esteja diretamente ligado ao hip-hop. Aumentou minha autoestima, me deu força para estudar, aprender sobre o meu passado, conhecer outras pessoas pelo mundo, que têm as mesmas intenções. O hip-hop fez com que eu me sentisse importante e me destacasse em num mundo excludente e individualista… Mesmo fazendo e pregando tudo ao contrário disso. O hip-hop é diverso, é coletivo, é cultural, é social, é comercial… Difícil definir uma linha única de futuro para o hip-hop, mas ele crescerá ainda mais nos próximos dez anos.” – Dudu do Morro Agudo, MC e produtor cultural, conheceu o hip-hop em 1993.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>