Gustave Doré

Nei Nordin

É muito provável que você já tenha se deparado com alguma das ilustrações de Gustave Doré. Ele foi um dos ilustradores mais famosos da Europa de seu tempo. Suas gravuras costumam causar um impacto sobre o observador, pois são carregadas de uma forte dramaticidade que não raro leva à introspecção.

Gustave Doré

Gustave Doré

Paul Gustave Doré (1833-1883) nasceu na França, em Estrasburgo e era filho de um engenheiro. Seu talento se manifestou muito cedo. Já com doze anos impressionava com seus esboços e aos quinze já conseguiu obter uma contratação como ilustrador em um jornal. Nesta mesma época também realizava exposições em diversos eventos.

Doré teve uma carreira próspera como gravador, pintor e escultor, mas curiosamente não possuía formação técnica. Muito cedo já recebia uma enorme demanda de encomendas, o que tornava escasso o tempo para dedicar-se aos estudos.

No jornal ocupava-se muito com caricaturas, mas logo passou a aceitar encomendas para ilustrar livros. Sua reputação viria com o trabalho feito com Rabelais, publicada em 1854. A partir de então muitos outros trabalhos lhe seriam encomendados e só fariam por aumentar sua fama. Sua obra seria mesmo cultuada em países como França, Estados Unidos e em especial na Inglaterra onde seu trabalho chegou a ser contemplado com uma exposição em 1867. Deste evento resultaria a fundação da Galeria Doré em Bond Street, em Londres.

Ele trabalhou com afinco e estabeleceu um ritmo acentuado de produtividade. Consta que possuía grande facilidade em desenvolver sua arte, o que chegou a lhe render boas somas de dinheiro. Em 1861 foi nomeado cavaleiro da Legião de Honra, chegando ao cargo de diretor desta instituição em 1879.

Gustave Doré nunca se casou e sempre morou com sua mãe mesmo após a morte de seu pai em 1849. Ele ilustrou livros até o dia de sua morte, em Paris, em 23 de janeiro de 1883. Morreu pobre. Atualmente seus restos mortais repousam no cemitério parisiense de Père Lachaise.

Doré 02Ele já foi considerado precursor da história em quadrinhos. Seu trabalho serviu de inspiração para Van Gogh, Cécil B. DeMille, Ridley Scott, Terry Gilliam, Tim Burton e Steven Spielberg. Com seu ambiente fantasmagórico, sua imaginação estranha e dotada de um sentimento dramático criou imagens para heróis e vilões de contos, fábulas e romances e ilustrou textos de Dante, Rabelais, Cervantes, Milton, Shakespeare, La Fontaine, e também ilustrou obras de seus contemporâneos como Victor Hugo, Balzac e Edgar Allan Poe. É considerado como um dos mais prodigiosos artistas do século XIX.

Como já foi dito acima, sua falta de formação técnica era gritante e denunciava traços defeituosos de seu desenho e sua deficiência na utilização das cores. Isto não impediu seu grande sucesso, principalmente entre os ingleses que o incluíram entre seus grandes pintores. Contudo, há quem diga que suas aquarelas são horríveis e demonstram sua falta de aptidão para a pintura.

Doré possuía a pretensão do registro histórico e forte inclinação para retratar detalhes e hábitos com minúcia. Esta percepção foi especialmente utilizada quando, em 1869, recebeu a proposta de Blanchard Jerrold para, em conjunto, produzirem uma obra que retratasse Londres. Assim foi publicado em 1872 o livro “Londres: uma peregrinação”. As cento e oitenta gravuras produzidas para este trabalho permitiram que Doré manifestasse suas aspirações individuais de artista.

Doré 03O lançamento foi um estrondoso sucesso comercial e popular, mas foi também alvo de críticas enfurecidas pelo fato de Doré evidenciar na obra a miséria que circundava a capital inglesa. Foi mesmo acusado de estar inventando uma realidade que não existia ou enfatizando as características vulgares ocultando a verdadeira Londres burguesa e próspera.

De fato, as gravuras de “Londres: uma peregrinação” são carregadas e envoltas em um clima bastante pesado. As figuras humanas são tensas e percebe-se facilmente que sobre elas pesa a luta pela sobrevivência num contexto de crise e abandono social. Não veremos personagens alegres, tão pouco cenas típicas da sociedade burguesa. Os semblantes graves das pessoas que disputam espaços entre si como em A City Thoroughfare, ou a conformação esforçada dos vendedores ambulantes como a moça que tenta equilibrar o balaio de flores em um braço e uma criança no outro: A Flower Girl. Olhares resignados e plenos de desesperança estão em toda parte. Os seres humanos cinzentos que suportam a vida de roldão e contragosto. A cena tocante das crianças que se avolumam na rua em Dudley Street, onde é gritante a falta de perspectiva de uma vida decente. Seres que quase já tem idade ou tamanho para alimentar as “fornalhas” de mão-de-obra da segunda revolução industrial.

Pode-se vislumbrar todo o custo do progresso estampado nas chaminés dos pátios espremidos em que as mulheres esticam seus varais. Todo um contexto histórico está demonstrado nesta obra que torna tão evidente as angústias e aflições daqueles que suportaram nas costas o peso de um grande império.

Gustave Doré foi primoroso com o registro de um observador detalhista que soube que havia muito mais a mostrar do que todos queriam enxergar.

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