Lucrécia1

- Renato Drummond

Durante toda a baixa idade média e o período renascentista, os estados italianos foram reconhecidos pela aplicação do uso de substâncias letais para por término à vida de uma pessoa detestada. Desse modo, o veneno passara a ser uma arma poderosa, utilizada inclusive por mulheres que desejavam punir com a morte seus traidores amantes e vice versa. Nesse contexto, a figura de uma notória dama (filha de um dos papas mais corruptos da história da igreja Católica, e irmã daquele que viria a ser o modelo ideal de príncipe para Maquiavel) se ergue da escuridão em volta a véus de mistério, até hoje não totalmente transpassados. Qual era a sua verdadeira face, e principalmente suas derradeiras intenções, é praticamente um elemento indispensável para se entender a errante personalidade de Lucrécia Bórgia. De acordo com as interpretações feitas da mesma durante o período que a sociedade ocidental convém chamar de vitoriano, ela passa a encarnar a figura de uma assassina de maridos, cruel e detestável. Mas será que era esse tão monstruoso demônio, cuja lenda começou a ser propalada pelos inimigos de sua família, enquanto ainda vivia? Voltemos então nossos olhos para essa questão, na intenção de estabelecer alguns pontos chaves para se compreender a mítica que envolve essa heroína trágica dos tempos modernos.

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Possível retrato de Lucrécia Bórgia, por Dosso Dossi.

Nascida a 18 de Abril de 1480, em Comuna de Subiaco (localizada nas proximidades de Roma), Lucrécia era a terceira filha de Giovanna Vannozza Dei Cattanei, uma mulher bem nascida, e o amante desta, o ilustre cardeal Rodrigo Bórgia, futuro papa Alexandre VI. Passara boa parte da infância ao lado da mãe, enquanto seus irmãos eram despachados para diferentes locais, sobre intermédio do pai dos mesmos. Contudo, não demoraria muito para que aquela garotinha de cabelos louros fosse afastada do seio materno e enviada para uma série de conventos, a fim de obter uma educação de qualidade para uma moça do período (mais tarde, faria presença na casa de Adriana de Milá, uma nobre viúva que era prima de seu pai). Entretanto, tanta erudição tinha apenas uma finalidade: prepará-la para o casamento. Ela, assim como era comum entre tantas moças aristocratas, seria dada em matrimônio a um fidalgo, para assim garantir uma valorosa aliança política para a sua família. Nesse caso, o pretendente em questão era membro de uma das dinastias mais poderosas de Milão: os Sforza.

A partir desse ponto é que começa a verdadeira epopeia desta jovem que, em 1493, tendo apenas 13 anos de idade incompletos, era sacrificada em prol dos interesses políticos de seu pai. Lucrécia, entretanto, não desposara um ilustre agente dos Sforza, mas sim um filho ilegítimo de Constanzo I, viúvo e com nenhum herdeiro. Seu nome era Giovanni, Senhor de Pésaro e intitulado Conde de Catignola. Contudo, como era a aparência da jovem naqueles tempos? Poucos foram os retratos de Lucrécia Bórgia que sobreviveram à posteridade. Entre eles, podemos identificar o famoso afresco de Pinturicchio, em que aparece representando Santa Catarina de Alexandria. Tendo como base a dita obra, podemos observar as seguintes qualidades na modelo em questão:

“… uma bela mulher de expressão doce e ingênua, pele clara com um rosto bem delicado, cabelos loiros – uma mecha de seu cabelo que está em Milão, na Biblioteca Ambrosina, e foi encontrada entre as correspondências do humanista veneziano Pedro Bembo” (AZEVEDO et al., pag. 2).

Sendo assim, é fácil concluir que Lucrécia se encaixava perfeitamente no padrão de beleza que era valorizado dentro do período renascentista e, portanto, ela constituía uma verdadeira tentação para os olhos dos homens.

Porém, quando de suas bodas com Giovani, era pouco mais que uma adolescente, aparentemente sem quaisquer experiências sexuais. Não obstante, os cônjuges passariam os dois primeiros anos do casamento vivendo separadamente; ele em Pésaro, e ela nos luxuosos apartamentos de seu pai no Vaticano. Destarte, a união entre ambos duraria pouco tempo, uma vez que tanto o papa Alexandre VI quanto seu filho César Bórgia pretendiam usar a jovem Lucrécia em um novo acordo matrimonial, e para tanto era preciso se livrar de Giovani Sforza, que se recusava aceitar o divórcio. Forçado a aquiescer, declarara então perante todos, a calúnia de que sua esposa mantinha relações incestuosas com o próprio irmão e o pai. Essa atitude sem dúvida deve ter irritado seu ex-cunhado, que se sabia ser um homem pouco tolerante. Desse modo, é possível dizer que César teria motivos de sobre para assassinar a Giovani, para assim vingar sua honra e a de sua família. Entretanto, um aspecto bastante curioso nesse processo viria a manchar a reputação de Lucrécia de uma maneira bastante calamitosa: ela saíra grávida de seu primeiro casamento, mas não de seu outrora esposo. Essa evidência se torna ainda mais embaraçosa quando confrontamo-nos com o fato de que a anulação do casamento com Sforza se deu com base na provável não consumação e “impotência” do marido. Se Giovani não poderia gerar filhos, então como sua mulher apareceria grávida pouco depois da morte do mesmo, estando ela enclausurada num convento?

Nesse caso, a resposta é bem simples: Lucrécia só poderia ter um amante, mas quem? Quando estava analisando com atenção o caso da famosa filha do papa Alexandre, deparei-me com o fato de que as circunstâncias pareciam incriminar um jovem chamado Perotto, um espanhol com quem ela mantinha relações ainda enquanto seu primeiro casamento estava em processo de anulação. Diante disso, perguntei-me se seria sensato condenar a atitude daquela mulher. Acredito que não! Eram muito comuns entre alguns países da Europa as mulheres se arrogarem o direito de manterem amantes, especialmente entre a sociedade italiana e francesa. Jovens como Lucrécia eram dadas em matrimônio a homens que nem sequer haviam conhecido e por quem não nutriam quaisquer sentimentos. Por isso, muitas delas procuraram o consolo em outros braços, onde poderiam obter o amor e o aconchego que não encontravam no leito conjugal. Em qualquer caso, o fato é que se acreditou na época que Lucrécia tivera um filho (em 1498) chamado Giovanni, mais conhecido como “Infante Romano”. Na ocasião, toda a sociedade havia se escandalizado com isso e para abafar comentários, o papa assumiu a criança como sendo sua com outra de suas amantes. Quanto ao pai biológico desta, fora assassinado juntamente com uma empregada doméstica, após já ter feito uma arriscada fuga das violentas facadas que lhe foram aplicadas por ninguém menos que César Bórgia.

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Papa Alexandre VI, pai de Lucrécia, por Cristofano dell’Altissimo.

Com efeito, todas as circunstâncias parecem mais uma vez implicar o famoso irmão de Lucrécia em mais um assassinato envolvendo o nome dela. Entretanto, parece que a culpa viria a recair somente na cabeça da própria, quando é certo que ela quase nada teve a ver com o atentado contra o ex-amante, que teve seu corpo atirado ao rio Tibre. A História, por sua vez, tem se mostrado muito cruel para com ela, creditando à mesma, responsabilidades que eram do extremo encargo de sua família, mesmo porque, naquele período, ela quase nada poderia interferir em assuntos como esse. Não passava apenas de um peão no jogo de alianças diplomáticas de seu pai e irmão. Como a família Bórgia sempre fora muito mal visada pela aristocracia dos estados italianos, devido às suas pretensões expansionistas e militares (como bem ressalta Maquiavel em O Príncipe), então é de se supor que parte desse ódio seria transferida para ela. Em 1498, ainda com a dúvida sobre a maternidade pairando em cima de si, ela seria entregue em casamento a Alfonso Biscegli, também assassinado pelas mãos de César Bórgia, em 1500. A narrativa de tais acontecimentos segue então de forma confusa. Em dado momento é possível dizer que os fatos se cruzam com falácias levantadas ao longo dos séculos, de modo que se torna necessária uma investigação mais profunda acerca de tais personagens.

Não duvido que César, à medida que seus cunhados lhe voltavam as costas, tenha se livrado dos mesmos através de métodos violentos, arrumando-lhe emboscadas, assim como também penso ser possível que, embora não culpada pela morte de seus maridos, Lucrécia estava ciente dos perigos que estes corriam. Em alguns casos, como no de Biscegli, ela ofereceu-lhe esconderijo, inclusive tomando precaução para que a comida que ele ingeria não fosse envenenada. Entretanto, a morte de seu terceiro cônjuge estava intimamente ligada aos desejos que César Bórgia nutria para com o trono de Nápoles. Conforme nos diz Daniela Azevedo (et al.),

“Lucrécia ficou profundamente abalada com a morte de seu marido, e se pôde ver seu desespero, que a levou a refugiar-se por um tempo no convento de São Domini. Alexandre VI esforçando-se em recuperar a afeição da filha, e de mostrar ao futuro marido de Lucrécia, que ela era capaz de governar […] entregou a sua filha a direção dos negócios da Igreja” (AZEVEDO et al., pags. 3-4).

Esse trecho traz consigo uma passagem bastante peculiar sobre a vida de Lucrécia e da própria história do catolicismo: em 1501, enquanto Alexandre VI estava ausente, deixara sua filha na chefia dos assuntos da igreja em vez de um cardeal suplente. Pela primeira vez em séculos (lembremo-nos do caso da papisa Joana) uma mulher se sentava do trono de São Pedro, para o desespero dos clérigos e sacerdotes.

Com efeito, fora um verdadeiro escândalo para os países católicos ver uma mulher, ainda por cima de reputação duvidosa, acusada de matar os próprios maridos com o recurso do veneno, assumir os assuntos da igreja. Contudo, foi uma tarefa a que Lucrécia se submeteu, logrando, se não êxito, pelo menos méritos suficientes para recomendá-la a Afonso D’Este, filho do duque de Ferrara e último dos consortes da jovem (os dois se casaram por procuração em 30 de dezembro de 1501). Apesar dos casos extraconjugais envolvendo ambas as partes, é possível dizer que fora uma união relativamente estável e muitos filhos do casal sobreviveriam à posteridade. Não obstante, como duquesa de Ferrara, Lucrécia teve a oportunidade de mostrar o quanto podia ser útil politicamente ao marido. Ainda de acordo com Azevedo (et al.),

“Lucrécia Bórgia entrou para história como uma mulher má, envenenadora de seus maridos, mas a história contada pelas correspondências da época mostra uma mulher bem diferente. Além de ser linda e delicada como a Santa Catarina de Pinturicchio dos aposentos dos Bórgia, há relatos de que quando governou Ferrara em ausência de seu marido, ela foi justa proibindo discriminações contra os judeus, aplicando severas penas aos que as descumprissem” (AZEVEDO et al., pag. 4).

Sendo assim, é possível observar que apesar de pertencer a uma família conhecida por seus crimes e trapaças políticas, Lucrécia, quando em situação equilibrada, utilizou dos poderes de que dispunha para aplicar ações que considerasse justas, tendo ela sido também uma grande mecenas, como era comum a outras nobres do período.

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Provável retrato de César Bórgia, por Altobello Melone.

Após a morte de Alexandre VI, em 1503, a família Bórgia perde de forma considerável a sua influência sobre os estados Italianos, especialmente com a ascensão do papa Júlio II ao trono de São Pedro, uma vez que era um ferrenho opositor das atitudes de seu antecessor. Lucrécia, contudo, viveria uma vida tranquila, até morrer prematuramente, pouco tempo depois do parto de sua última filha com Afonso D’Este, em 24 de Junho de 1519, tendo somente 39 anos de idade. Os séculos se passaram e, no entanto, a figura desta malfada senhora continuou a ser vilipendiada por uma série de romancistas, principalmente durante o período vitoriano, em que se tornara irresistível reprisar a trajetória daquela mulher a quem se dizia ser uma assassina profissional de maridos. Até hoje a cultura popular reconhece-a apenas pela historieta de que era portadora de um anel em cujo interior abrigava a “Cantarella” (famoso veneno dos Bórgia). Se isso é verdade ou não, cabe aos historiadores investigarem melhor, na intenção de retirar do campo de especulações a figura de uma mulher forte, cujo destino estava preso à vontade dos homens.

Texto também publicado no blog do autor: Rainhas Trágicas

Referências Bibliográficas:

AZEVEDO, Daniela Grillo de; Et al. Lucrécia Bórgia: sua Imagem no renascimento e na contemporaneidade. 2007 – Último acesso em: 14 de Março de 2013.

GRILLANDI, Massimo. Lucrécia Bórgia. – São Paulo: Círculo do Livro, 1984.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução, prefácio e notas de Lívio Xavier. – [Ed. Especial]. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

Texto coletado no blog Causas Perdidas e publicado com autorização

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