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- Silvia Marques

Gostar ou desgostar do estilo de um cineasta ou de outro artista qualquer é uma coisa. Taxá-lo como bom ou ruim a partir do gosto pessoal é uma ideia simplória que deveria ser eliminada da cabeça das pessoas ou na pior das hipóteses guardada para si mesmo.

Não gostar do estilo sangrento de Tarantino, tudo bem. Dizer que não existe conteúdo em seus filmes e que tudo se resume à violência é uma frase típica de quem não consegue ver além do óbvio.

Em Pulp Fiction ( 1994), por meio do submundo extravagantemente cafona dos mafiosos, Tarantino mergulha de cabeça nos simulacros da cultura americana. Muito mais do que um filme sobre a máfia e a violência, Pulp Fiction é uma obra sobre os excessos de uma cultura estridente e as dicotomias inerentes à raça humana, em que John Travolta faz um criminoso erudito, meio filosófico, que adora ler, servindo de metáfora das contradições humanas, quebrando estereótipos. Uma cena aparentemente simples, mas que merece destaque é quando o personagem de Travolta sai do banheiro, segurando um livro e é baleado pelo boxeador com sua própria arma que ele deixou sobre a pia da cozinha. Em filmes tradicionais de violência, os criminosos e heróis estão sempre alerta, com tudo sob controle. Os criminosos e mocinhos de Tarantino são humanos, se distraem, fazem poesia, vão ao banheiro no meio de uma tarefa importante.

A relação tensa e delicada simultaneamente do fracassado boxeador vivido por Bruce Willis com sua namorada de inteligência limitada, interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros, mostra com boa dose de realismo os inevitáveis abismos de qualquer relação amorosa.

Quando o boxeador cai nas garras de criminosos muito mais perigosos do que o mafioso que o persegue, juntamente com o mafioso, nos deparamos com a imprevisibilidade da vida e com a famosa lei de Murph, que afirma que não há nada tão ruim que não possa piorar. Nesta cena, a visão niilista de Tarantino fica bem clara. O mundo é um lugar muito perigoso.

A paixão de Jules, personagem interpretado por Samuel L Jackson, por hambúrgueres também pode servir de metáfora para o culto ao prazer imediato vivenciado pela personagem de Uma Thurman que quase morre de tanto se drogar e pela própria sociedade, que é imediatista. O restaurante onde os personagens de Travolta e Thurman vão comer sanduíches parece um museu de cera como o próprio personagem de Travolta afirma. Um mundo engessado, pasteurizado, de faz de conta. Um ícone da cultura americana. No meio de uma conversa instigante, o personagem de Travolta começa a questionar o valor abusivo do milk shake tomado pela personagem de Thurman. Estes debates comezinhos nos fazem sair da catarse fílmica e adentrar em nossas próprias crises e questionamentos cotidianos. Eles interrompem a refeição para participar de um concurso de dança e ganhar um troféu. Enfim, nas sociedades de consumo, embriagadas pela cultura de massa, tudo vira show e competição.

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Cena do filme de Kill Bill- volume 1

Em Kill Bill- volume 1 ( 2003) Tarantino faz uma homenagem aos samurais. Mas, o que me parece mais interessante, é a paródia que ele faz sobre o tema da vingança, que fica muita nítida logo no início do filme. Quando a personagem protagonista interpretada por Uma Thurman assassina uma antiga colega de trabalho, em sua casa , na presença da sua filhinha, podemos ver todo o piso da cozinha coberto por cereais matinais coloridos. Isto é, a violência à que as crianças são submetidas está acoplada ao mais banal dia a dia. A cena sangrenta mostrada em conjunto com os cereais pode ser considerada uma relação metafórica entre a banalidade da violência e a sociedade de consumo e cultura de massa. Consumimos violência como consumimos cereais, fast-food e mais uma porção de itens em alta no mercado.

A protagonista diz à garotinha órfã que ela pode procurá-la na fase adulta, para um acerto de contas se ainda guardar rancor. Ela fala com um jeito doce e calmo, de certa forma, ironizando filmes que se centram no tema. O tom calmo de voz pode nos remeter à ideia de que a violência e a vingança estão sendo banalizadas tanto na sociedade como no cinema.

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Cena do filme Cães de aluguel

Em Cães de aluguel ( 1992) Tarantino questiona os limites éticos existentes entre criminosos e policiais e inicia a obra com um debate muito interessante sobre a necessidade de dar gorjetas às garçonetes. Exceto Mr. Pink, todos os integrantes do grupo pensam que é uma questão moral dar gorjetas às garçonetes pois elas são mulheres sem oportunidades melhores na vida, que trabalham duro e dependem das gorjetas para viver. Este tipo de debate partir de um grupo de ladrões é no mínimo instigante porque demonstra uma sensibilidade que muitas pessoas honestas e cumpridoras das regras sociais não possuem. Muitas pessoas respeitáveis da sociedade não compreendem a importância da gorjeta para trabalhadores com menos grau de instrução e como Mr. Pink reduzem tudo a uma questão de mérito e não de generosidade e proteção aos mais fracos.

Os ladrões sendo criminosos estão à margem da sociedade. E qualquer tipo de questionamento da ordem social é uma forma de colocar-se à parte também. Enfim, mais uma vez, vemos uma espécie de metáfora entre a criminalidade e a quebra de regras injustas, levantando um ponto de vista bem polêmico.

A cisma que Mr. Pink e Mr.Brown têm em relação aos seus nomes fantasia nos remetem ao universo infantil e desta forma Tarantino mais uma vez humaniza e infantiliza seus personagens que deveriam ter tudo sob controle.

Quando Mr. Orange, interpretado por Tim Roth, um policial disfarçado, conta para os criminosos um episódio fictício do seu passado, a quarta parede é quebrada , simbolizando a falsidade da narrativa. Falsidade em dois sentidos: do personagem de Tim Roth e a própria falsidade do cinema que é ilusão, mesmo nos conduzindo à vicissitudes da realidade.

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Cena de Bastardos inglórios

Tanto em Bastardos inglórios ( 2009) como em Django livre ( 2012) Tarantino recria trágicos momentos históricos, dando desfechos diferentes, fazendo as vítimas se rebelarem histericamente. Se por um lado sabemos que não podemos apagar o que aconteceu, por outro, pode ser muito catártico imaginar determinados fatos sob uma nova perspectiva. O levantamento do “se” nos faz pensar em como seria o nosso hoje se o nosso passado tivesse sido outro. A catarse vivida em um primeiro momento se dissolve quando saímos do frenesi do filme e nos lembramos que Tarantino está apenas divagando e que a realidade foi bem pior do que a mostrada em seus filmes.

Em uma cena cômica de Bastardos inglórios, porém decisiva para a personagem Bridget , vivida por Diane Kruger, Tarantino cutuca mais uma vez a cultura americana , fazendo que o grande líder nazista desmascare os protagonistas por meio da péssima pronúncia italiana dos mesmos.

Para Tarantino, o sangue, o submundo, a violência , a vingança são a sua estética. Ele transforma o brutal em estética. Ele transforma o brutal em poesia. Seu cinema é altamente racional pois ele quebra a quarta parede e nos faz mergulhar em nossas próprias contradições e nas da sociedade também.

Texto coletado do blog Obvious

One thought on “O cinema filosófico de Tarantino

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