Rota 66 01

- Mayquel F. Eleuthério
Postado em 05/04/2015

“A transformação econômica era ignorada, planos para a transformação não tomados em consideração; e apenas os meios de destruir as revoltas eram levados em conta, enquanto as causas das revoltas permaneciam irremediadas.”

John Steinbeck

Rota 66 02Após Illinois, Chicago e Saint Louis, atravessa o Missouri, Kansas: 20 Km: Galena, Riverton e Baxter Springs; desliza por Oklahoma até iniciar-se o Texas: Amarillo, Texola, Glenrio, McLean e Conway, desbocando no Novo México, em Albuquerque; Arizona: Flagstaff, Seligman, Kingman, Oatman; e, por fim, Califórnia: Barstow, Santa Mônica e Los Angeles. São 3.917 km distribuídos na estrada mais famosa do mundo, atravessando oito Estados e mais de vinte cidades americanas, a Estrada 66, um dos principais símbolos mundiais de liberdade.

Ligando o leste à costa oeste dos Estados Unidos, a Estrada 66 foi amplamente difundida, abriu as portas para a industrialização e disseminação da agitação citadina em várias cidades nos meandros de seu permeio. A rota foi palco de grandes eventos, sendo o maior em demonstração armipotente, a mobilização militar na época da Guerra do Vietnam. Mas, sendo ainda mais marcante, o fato de maior prova da incomensurabilidade do poder do encurralado foi o momento em que a população do leste fugia em massa de suas fazendas para o sonho de uma boa vida na Califórnia, nas décadas de 20 e 30, foi certamente o instante mais dramático do povo americano nos últimos tempos.

Partiam porque não tinham mais como viver sob a ameaça dos proprietários de terra, que surgiam da noite para o dia sob o aspecto de bancos e companhias de terras, oriundos do incrível desenvolvimento que a economia americana sofrera com os efeitos pós Primeira Guerra Mundial. Os arrendatários foram substituídos por máquinas, por tratores e colheitadeiras que sozinhos faziam o trabalho de dez famílias inteiras. Tendo isso em vista, as famílias gradualmente foram sendo expulsas das terras onde habitavam desde o nascimento; surgia uma época nova, algo estava para acontecer. A invasão concomitante dos tratores resultou em um grande movimento de abrangência gigantesca de famílias que buscavam desesperadamente um lugar para viver, um trabalho para sustentar-se e, principalmente, alguém que lhes ajudasse a encontrar os dois primeiros. Dissera que a Califórnia guardava uma chance de vida para cada indivíduo que teve arrancado de si o direito de ter uma vida digna. Basicamente, todas as famílias humildes da costa leste se viram na necessidade extrema de encontrar emprego e viram na Califórnia uma chance de que isso se tornasse real, debandaram simultaneamente, juntando seus pertences em automóveis débeis, comprados com o limitado dinheiro das economias da família, e retiraram-se cambaleantes para o oeste, todos em êxodo, pela rota de mais fácil acesso, a Estrada 66.

Rota 66 - A grande serpente americana

Rota 66 – A grande serpente americana

A situação financeira das famílias que migravam era de tal modo precária, que os veículos usados para viagem eram simplesmente tudo o que tinham, depositavam todas as suas esperanças de uma vida tranqüila nas rodas dos automóveis, que inundavam a rodovia levando, cada um, uma numerosa família com desejos praticamente iguais. Era gente da mais simples e laboriosa humildade, migram por terem suas vidas dependentes disso, serão tratados como animais, pela razão de que animais ao menos sobrevivem neste iníquo processo.

A decisão de partir era demasiado ousada, principalmente porque a maior parte das pessoas que iriam não sabiam a distância nem o tempo de viagem até a Califórnia, partiam sabendo apenas a direção a seguir, partiam com a coragem e com a saudade.

Uma família que saia de Chicago tinha de percorrer sete estados, mais de 2.500 km, o que resulta em mais de oito dias de viagem, levando em conta a velocidade média de 50 km/h dos carros da época, as pausas para acampar nas valas que ladeavam das estradas e o congestionamento nas proximidades das grandes cidades, como Oklahoma City. Não se deve esquecer que a grande maioria desses carros danificava-se no longo trajeto, eram automóveis fracos, (Fords Modelo T, Hudsons, Dodges 926, etc) calhambeques que não estavam preparados para tamanha jornada. O dinheiro a ser gasto com a viagem (gasolina, comida, água) era um dinheiro sagrado, juntado com um labor extraordinário, dinheiro que fez com que famílias pobres comprassem o carro e munissem-se para grande viagem. Alguns grupos iam mesmo andando para regiões onde supostamente conseguiriam emprego com mais facilidade. Na verdade, tudo era suposição, mais de trezentas mil famílias enveredavam-se ao oeste, impulsionadas por anúncios de vagas em fazendas de algodão, frutas, e legumes. Do que não sabiam era que o que lhes esperava era uma chuva de ratos, a estratagema dos donos das grandes fazendas era exatamente baseada na competição desesperada que a crise provocava.

Rota 66 04O empregador oferecia um salário baixíssimo para quem pretendesse preencher as vagas (não eram poucos, geralmente cinco ou seis vezes mais que o número de vagas predefinido), e ia baixando a renda a ser paga, conforme isso acontecia, alguns trabalhadores iam abandonando a oportunidade, enquanto outros permaneciam, porque, seja qual fosse o estipêndio, teriam de aceitar, pois o filho estava com fome, a família subnutrida em uma terra desconhecida não era capaz de sobreviver sem dinheiro fixo, morreram inúmeras pessoas por conseqüência desta desnutrição, e eram gente justa, não esta-vam propensos à rapacidade. Acabavam, os laboriosos migrantes, por receber cerca de quarenta cents por hora, e, muitas vezes, menos ainda. Sustentavam-se de um jeito milagroso, assim como foi milagrosa sua viagem:

Nos estado de Illinois e Missouri, a estrada 66 passa por algumas cidades grandes, o que facilitava a passagem dos viajantes, pois os estabelecimentos freqüentes não os deixavam padecer perdidos no meio do nada, como aconteceria em diversos outros trechos da rota. Com a depressão, as grandes cidades destes dois estados alcançaram um alto índice de desemprego, 40%; vários grupos então se aventuraram (obrigados pela necessidade, mas se aventuraram) a atravessar na íntegra a “Estrada Mãe”, como eternizou Steinbeck referindo-se à rota 66. Viajantes incipientes transbordaram de cidades medradas, como Chicago, e subdesenvolvidas, como Pontiac; a grande estrada do êxodo tinha seu início em Illinois, e vaticinava, com a queda da qualidade de vida no estado, o destino negro de grande parte de seus viajantes. Passando por Missouri, os migrantes depararam-se com uma complacente ajuda sócio-econômica que o governo fornecia para os agricultores que sofreram com a recessão da década de 20, mas este auxílio não era suficiente para a demanda de arrendatários oriundos do interior e exterior do estado, em busca de empregos na cidade. Confrontando-se com a verdade de que não haveria vez para todos, apesar da grande clemência do governo, aumentava a afluência de trabalhadores vagando pela estrada 66 em seus calhambeques precários e suas famílias interioranas, cobertas de esperança e ingenuidade.

Kansas era o próximo destino para os arrendatários em êxodo, e, como se a crise mostrasse seu demônio máximo, era uma terra em decadência. Principal vítima do terrível Dust Bowl (sucessão de fenômenos naturais, como tempestades de poeira, nuvens de gafanhotos e secas), que dizimara simultaneamente com a grande depressão as fazendas do estado, majorando assim o número de trabalhadores procurando um novo lugar para viver, o Kansas não era ponto para ninguém reconstruir sua vida. O estado em questão foi o que mais acrescentou pessoas à busca de emprego; depois do Kansas, a Estrada Mãe assumia um aspecto assustador; de quando em quando se encontravam famílias inteiras na beira da estrada, veículos quebrados, grandes extensões palmilhadas, mortes. Era também a partir deste estado que a rota se via congestionada em diversos pontos, o que era deveras extraordinário, enquanto em outras localidades, ela mantinha seu aspecto sempiterno e aquerôntico.

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Dust Bowl – sucessão de fenômenos naturais, como tempestades de poeira, nuvens de gafanhotos e secas…

Tendo passado pelo desfalecimento comercial, agrícola e bancário do estado do Kansas, Oklahoma era o estado seguinte. Também era afetada pela estiagem, porém em menor intensidade. Oklahoma sofreu muito com o desemprego também, sua principal cidade, Oklahoma City, teve um enorme índice de trabalhadores citadinos desagregados de suas funções, e fazendeiros, de suas terras. Cidades como Erid e Tulsa ficaram com profundas cicatrizes da crise.

Depois de Oklahoma, Texas era território a ser atravessado pelos viajantes. Cidades como Glenrio, Texola e Conway, assoladas, assim como os estados vizinhos, pela estiagem e pela recessão, acrescentavam gente à dura perscrutação às apalpadelas por uma vida nova; todavia, o indicador de desemprego no Texas foi menor que nos outros estados, pois o governo investia intensamente na construção de rodovias nas imediações do estado, empregando um grande número de trabalhadores que vinham dos estados já apresentados, e também procedendo para que o povo texano não abandonasse sua terra. Contudo, a ajuda oferecida pelo governo não passou de uma tentativa irrisória de conter um enorme fluxo migratório, incessante, rumo ao oeste. O emprego nas construções de estradas socorreu várias famílias da miséria, mas devido à seca, várias famílias de agricultores resolveram deixar o Texas e partir rumo à Califórnia.

O estado que mantinha o maior trecho da rodovia 66 era o Texas, percorridos esses 261 km, a estrada, infinda e desabitada, invadia serpenteando o Novo México. Ora cursada por comboios de veículos barulhentos, ora por autos solitários, absortos no abandono que o incipiente clima do deserto os incorporava; a 66 era a artéria que ligava os estados mais afetados pela crise, e entre eles, o Novo México foi o que menos sofreu, porque graças à descoberta de petróleo no território do estado, no final da década de 20, o capital era ali mais difuso e a economia não atropelava tanto os trabalhadores. Mas o Novo México também sofria os danos do período aziago; vários fazendeiros partiram para as grandes cidades do estado, principalmente Albuquerque. Para os que desde Missouri ou Illinois viajavam, a sede exaustiva e o calor extenuante eram os piores inimigos, a solidão daquelas bandas era extremamente perigosa quando a qualidade dos veí-culos era lembrada.

A Estrada Mãe segue pelo deserto e adentra a Arizona, famílias desventuradas que tiveram seus veículos invalidados pelas mais insignificantes adversidades aguardavam caridade na beira da estrada, ou então iam andando pela interminável auto-estrada até a próxima cidade. O deserto do Arizona era o retrato do êxodo, da fome e do desespero que guiava as famílias para o inseguro porvir. Na altura de Selligman, inicia-se os relevos que transformam o solo plano do deserto em pradaria, e logo, em montanhas. Flags-taff localiza-se na parte mais crítica das montanhas onde transcorre a estrada 66, muitos dos fracos carros tiveram seus motores sobrepujados pelas abruptas sucessões de lombas deste trecho. Passar pelo Arizona era um grande desafio de resistência, tanto o deserto, como as montanhas, e tanto para a máquina, quanto para quem a guia; mas depois deste infortúnio, encetavam-se as férteis terras da Califórnia.

A esperança que os viajantes levavam consigo eram, aos poucos, dirimidas. Na fronteira do Arizona com a Califórnia, haviam patrulhas da polícia incumbidas de repreender os arrendatários que por ali passariam. Os grandes proprietários, apesar de necessitar de trabalhadores, viam com olhos atônitos as trezentas mil pessoas esfaimadas vindo em busca angariada por emprego. Desenvolveu-se rapidamente um litígio belicoso entre os trabalhadores vindos do leste e as autoridades juntamente com os demais cidadãos californianos.

Os viajantes eram odiados, mas não queriam o mal de ninguém, eram gente humilde, carregadas pela iniqüidade das empresas de porte suficiente para terem comprado suas terras e tê-las substituído por frívolos maquinários de eficiência eminente.

Segregados, os arrendatários, escravos do acaso, passaram a montar pequenas sociedades para facilitar sua sobrevivência. Arregimentavam-se em minúsculos vilarejos chamados Hoverville, onde a qualidade de vida era extremamente difícil, porém agrupados, podiam se ajudar. Hoverville era o nome genérico para todas essas aglomerações; eram amiúde censuradas pela polícia, todavia, desses encurtados conflitos, raramente resultava alguma morte, e quando isso acontecia, eram os arrendatários os considerados culpados, e, na próxima noite, essa Hoverville já se encontrava às cinzas, e seus habitantes, angariando mais uma vez um lugar para instalar-se.

Hoovervile em Seattle - 1933

Hoovervile em Seattle – 1933

Muitas vezes, o governo, cumprindo seu mínimo dever, auxiliava a população em crise, ignorando sua origem, mas a maioria das vezes essa ajuda era neutralizada pelos potentados empresariais que temiam uma revolta organizada dos injustiçados, que eram capazes, se unidos e com um objetivo certo, causar graves alterações na composição social local, o que na verdade aconteceu no final da crise. Os vilipendiados trabalhadores eram tratados como animais justamente para que não tivessem idéia do estrago que poderiam causar.

Uma guerra civil era bastante provável, assim como o absurdo retorno da escravidão. Trabalhadores californianos viam com olhos exasperados os vindos de outros estados, que “roubariam” seus empregos aceitando contribuições mais baixas, autoridades eram manipuladas para agir em nome dos eminentes industrialistas, enquanto estes deleitavam-se com o prazer de pagar estipêndios cada vez mais abjetos sem baixar o preço do produto, e ainda com cada vez mais empregados ludibriáveis, não que esse último detalhe parta da capacidade mental do trabalhador, mas a necessidade inegável do dinheiro possuído em abundância pelos empresários causava uma irrevogável subordinação do pobre.

O que os proprietários abastados não sabiam é que seu modo corrosivo de crescimento econômico, conspurcando a integridade dos operários, trabalhava a própria falência comercial. As estradas estavam cheias de pequenos proprietários falidos, trabalhadores sedentos por emprego, crianças que cresciam tísicas, famílias inteiras morrendo de fome e de doenças banais. Seu dinheiro e sua demasiada fome pelo mesmo não os permitia perceber que entre o opróbrio e a revolta geral o espaço não era tão extenso quanto o de Chicago a Los Angeles.

A sorte era inerente à enteléquia de arranjar um trabalho na Califórnia, as épocas de colheitas das terras frugais da região ajudavam insignificantemente a conter a miséria; não houve um combate de grande escala entre civis e autoridades durante a grande depressão, muitas centenas de famílias ocuparam a Califórnia em busca de emprego, porém encontraram apenas a censura e a coibição. Este drama só começou a dissipar-se com o início da Segunda Guerra Mundial, quando o capital americano foi movimentado e a agitação militar colaborou para desenrolar a situação, com a eleição de Roosevelt e a consolidação do New Deal. Mas esse é um assunto para uma outra explanação, pois se trata da sublimação de um indivíduo perante a massa, das dualidades de pontos de vista de um plano ideológico. O êxodo trabalhista da grande depressão não é só um símbolo de força de vontade ou de força popular, vista a obtenção do direito de associação dos trabalhadores, é a representação do fantasma do poderio operário sobre a classe patronal, a força do medo e da necessidade, a prova de que quem se vê mais poderoso que os outros não deixa de ser um escravo alheio. São lições eternas que destacam seu valor principalmente nas horas em que o povo deixa de dirigir o Estado.

SUGESTÕES

Livros:
As Vinhas da Ira (1939) – John Steinbeck
Conquer the Crash (2002) – Robert Prechter Jr.

Filmes:
Tempos Modernos (1936) – Charles Chaplin
Seabiscuit, Nascido Para Ganhar (2003) – Gary Ross
A Roda da Fortuna (1953) – Vicente Minelli

Música:
The Ghost of Tom Joad – Bruce Springsteen
Road 66 – Nat King Cole
Lost Highway Unreleased – Hank Williams

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