Pracinhas 00

 Bruno Corrales

A grande conquista dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial foi o maior conflito do século XX, estabelecendo vínculos entre variadas nações e progredindo em diversas frentes de batalha. A mais famosa delas, sem sombra de dúvidas, foi a presente na Europa, iniciada com a invasão alemã à Polônia no primeiro dia de Setembro de 1939 e expandida para outros países do Velho Continente nos anos seguintes. É possível calcular, desta forma, que diversas forças cruzaram o território europeu a fim de defender as bandeiras as quais submetiam-se. Por motivos óbvios, os exércitos mais citados são os da Alemanha Nazista, da União Soviética e dos Estados Unidos da América. No entanto, não foram somentes esses guerreiros que travaram suas batalhas na frente europeia de combate – em aliança com Hitler, as tropas da Itália Fascista de Benito Mussolini defenderam o lado do Eixo. Em contrapartida, ingleses, canadenses e (sim!) brasileiros foram alguns dos que lutaram em defesa dos Aliados. E é sobre os homens das terras tupiniquins que discorreremos daqui em diante.

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O Brasil declarou guerra ao Eixo em Agosto de 1942, após uma série de ataques de submarinos alemães a embarcações brasileiras – na imagem acima, presidente Getúlio Vargas e seus ministros em reunião após a declaração de guerra. A entrada militar brasileira, no entanto, só efetivou-se em 1944, com o envio da Força Expedicionária Brasileira (criada um ano antes) e da Força Aérea Brasileira (também especialmente formada para a guerra) para a frente de batalha italiana. Vinte e cinco mil homens integraram as forças nacionais no conflito mundial, havendo, dentre esses, mil e duzentos  voluntários.  A FEB foi alocada no IV Corpo do 5º Exército Americano, enquanto a FAB, com seus 42 pilotos e 400 soldados de apoio, no 350º Grupo de Caça.

Pracinhas 02Lutando ao lado dos estado-unidenses na Itália, os pracinhas da FEB alcançaram algumas vitórias importantes. Nenhuma delas, entretanto, se compara com a conquista de Monte Castelo, que neste último sábado, dia 21 de fevereiro de 2015, fez o seu septuagésimo aniversário. Mas o que foi esse tal de Monte Castelo? Qual fora a sua importância e como os brasileiros o tomaram?

Monte Castelo é uma montanha de mais de 900 m de altitude localizada nos Apeninos Setentrionais, entre as regiões italianas da Toscana e Emília-Romanha. Durante o avanço do exército Aliado, Monte Castelo se encontrava nas mãos da 232ª Divisão de Infantaria Alemã, comandada pelo tenente-general Eccard Freiherr von Gablenz, formada por cerca de 9.000 soldados; e apresentava um obstáculo para a chegada aliada à Bolonha, aonde o IV Corpo de Exército agiria em prol do 8º Exército Britânico. Dos pontos estratégicos, Monte Castello era o mais importante da região – composta também por Monte Belvedere, Della Torracia e outros –  para a concretização dos objetivos americanos e brasileiros.

Pracinhas 03Já em Novembro e com o inverno começando a trazer desconforto, os comandados do General Mark Clark, encarregado das Forças Aliadas na Itália, teriam como meta dominar o Monte Castelo antes da chegada da neve característica da estação. A 1ª DIE (Divisão Expedicionária), que basicamente compunha o exército brasileiro, teria a árdua tarefa de conquistar aquele morro, a despeito da inexperiência e treinamento inadequado para um combate de tamanho porte. Assim, o Esquadrão de Reconhecimento e o 3º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria da DIE uniram-se, em 24 de Novembro de 1944, à Força-Tarefa 45 dos EUA para dar início ao ataque.

A primeira investida veio a acontecer, também, no dia seguinte; e indicou que a operação seria um sucesso: os norte-americanos tomaram o Monte Belvedere, vizinho de Monte Castello, e até mesmo conseguiram avançar até o alto deste último. Uma contraofensiva germânica, porém, desbaratou as tropas aliadas e reconquistou os terrenos perdidos, com excessão de Belvedere.

O novo ataque dos brasileiros foi marcado para o dia 29 de Novembro, e seria efetuado praticamente à moda brasileira – três batalhões do Brasil atacariam o monte, recebendo apenas apoio da artilharia estado-unidense. Com o 1º Batalhão do 1º Regimento de Infantaria; o 3º Batalhão do 6º Regimento, e o 3º Batalhão do 11º Regimento já posicionados na noite do dia 28, porém, chegou a notícia da reconquista alemã do Monte Belvedere. Os ânimos baixaram, pois o Belvedere cobria o flanco esquerdo das tropas que investiriam, mas o plano prosseguiu mesmo assim – afinal de contas, os homens já estavam a postos. Às sete horas da manhã, os pracinhas da FEB iniciaram a tomada com uma série de desvantagens: o clima nublado impediu o acesso dos aviões de caça, e o terreno enlameado barrou o progresso dos tanques, que também ficaram de fora da investida. Ao final da tarde, os tedescos (apelido conferido pelos brasileiros às forças nazistas na Itália) conseguiam manter suas marcas e os pracinhas retornavam à estaca zero.

Dia 5 de Dezembro, o General Mascarenhas de Morais recebeu ordens sucintas do IV Corpo: “Cabe à DIE capturar e manter o cume do Monte Della Torracia – Monte Belvedere.” Estamos falando aqui, claro, de Monte Castello. Em 12 de Dezembro, os brasileiros retornaram a invadir o morro, enfrentando não só os nazistas, como também o tempo ruim, que incapacitou o apoio aéreo e de artilharia. Com mais uma derrota e 150 pracinhas perdidos, Mascarenhas de Morais ganhou conviccção em seu pensamento: Monte Castello só seria conquistado por meio de uma ação conjunta, e não com meros batalhões, como o 5º Exército estava ordenando.

Pracinhas 04Seu plano aconteceria após a virada do ano, em 19 de fevereiro de 1945: era o Plano Encore. Após o rigoroso inverno italiano, digno de neve e vários graus negativos, os pracinhas participariam de mais um ataque ao monte pretendido, desta vez com todas as suas forças. Aí a origem do nome “Encore”, que em inglês significaria “bis”/”repetição”. Enquanto os brasileiros tomariam o Monte Castello, a 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos cobriria seu flanco dominando o Monte Della Torracia. Era a hora de atacar com tudo.

O planejamento estipulou um horário para a chegada de suas tropas nos topos dos montes: os brasileiros deveriam alcançar o pico de Monte Castello até as 18hrs, à medida que os americanos deveriam cumprir sua tarefa até as 17h30min. A investida começou às seis da manhã do vigésimo primeiro dia de fevereiro, “o dia D dos pracinhas”. A Artilharia Divisionária brasileira, comandada por Cordeiro de Faria, castigou os tedescos com força total, auxiliando os soldados dos regimentos que subiam o morro. A cobra fumou, como o lema dos brasileiros na guerra alegava que aconteceria. O correspondente de guerra Joel Silveira relata as palavras de Cordeiro de Faria, que na época lhe concedera um espaço:

“Começamos a atacar às 6 horas da manhã. As tropas em ofensiva constituem o 1º Regimento de Infantaria, o Sampaio. Os seus batalhões avançam na seguinte ordem: o 1º Batalhão, comandado pelo major Olívio Gondim de Uzeda, segue pela esquerda; o 2º Batalhão, comandado pelo major Siseno Sarmento, vai pelo centro; e o 3º Batalhão, comandado pelo tenente-coronel Emílio Rodrigues Franklin, partirá da direita.” (FONTE: http://www.pitoresco.com/historia/guerra/guerra04.htm)

Após uma dura batalha, o exército brasileiro pôs os pés no cume de Monte Castello – detalhe, antes mesmo da hora prevista e, além disso, antes que os americanos concluíssem a conquista do monte vizinho. A guerra no Teatro de Operações Italiano não havia acabado, mas um grande salto para tal foi dado.

Estas atitudes heróicas de nossos antepassados é que foram comemoradas/homenageadas no último sábado e que aqui são lembradas/homenageadas, ainda que tardiamente. Todas as vidas perdidas no conflito que mudou o mundo foram válidas e devem ser, com muito respeito, para sempre relembradas. O pracinhas mortos estavam lá por um ideal, apesar de todos os defeitos que possam ser atribuídos ao envolvimento brasileiro na Segunda Guerra Mundial, e devem eternamente ser chamados de heróis.

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