Shortinho

- Rodrigo Elsade

Essa história do shortinho no Anchieta é daquelas armadilhas ao raciocínio. Eu, como liberal confesso, fico preso entre os que defendem a liberdade de cada um usar o que quer e os que defendem a liberdade de uma instituição privada decidir suas próprias regras. No entanto, acabo pendendo para o lado da instituição privada, já que todas as alunas que estão reivindicando o uso da vestimenta são totalmente livres para trocar de escola.

Ainda assim, acho que esse assunto é muito mais complexo do que se apresenta; simplesmente não consigo simplificar a proibição do uso de um shortinho como machismo ou opressão (ainda que possam se fazer presentes e devam ser debatidos). Explico, e aguardo as acusações…

A maneira de se vestir em diferentes ambientes é uma das coisas mais intrigantes da nossa sociedade, na minha humilde opinião. É intrigante porque, apesar de as fronteiras serem nebulosas, certas situações são tão extremas e gritantes que não precisam de normas formais, fazem parte de um inconsciente social. Ninguém teria dúvidas de que eu não estaria adequadamente vestido se chegasse de terno em um churrasco com piscina; por outro lado, seria ainda mais inadequado eu chegar de bermuda e camisa aberta para atender os pacientes em um consultório médico. E isso ninguém escreveu, ninguém impôs, ninguém inventou. A questão é que certas ocasiões necessitam de mais formalidade na vestimenta (e, de maneira mais ampla, no comportamento) do que outras. A roupa que eu uso não é apenas um teste para a capacidade dos outros de me respeitar, mas é também um indício do quanto eu respeito os outros. Se sou convidado para uma formatura, não é um desrespeito chegar de uniforme de futebol?

Bem, um colégio lotado de adolescentes não é o ambiente mais formal do mundo – nem a adolescência o estágio mais respeitoso da vida do ser humano -, mas também não é o mais informal. Fica naquela fronteira nebulosa… Portanto, qual o limite de vestimenta para quem frequenta um local desses? As meninas podem usar shortinho? Discutível. As professoras podem usar shortinho? Creio que não veria muitos defendendo essa posição. Meninos podem usar cueca box? Certamente não. Meninos podem ir sem camisa? Não. Meninas podem ir de top mostrando a barriga, ou com blusa decotada? Hum… Professor pode dar aula de bermuda e camisa aberta? Acho que não seria adequado.

Penso o seguinte… O colégio, com todas as suas falhas, é o primeiro ambiente acadêmico – e, portanto, com alguma formalidade – do qual participamos em nossa vida. É o primeiro lugar em que somos colocados no mesmo ambiente que pessoas das quais não somos parentes e nem necessariamente amigos, e que ainda assim somos obrigados (aí sim, obrigados) a respeitar. Mesmo as pequenas atitudes tem enorme influência no desenvolvimento do cérebro-esponja de um adolescente. Pois então, a maneira de se vestir não faz parte desse respeito que demonstramos pelos outros? Não faz parte do respeito pela instituição? E que respeito estamos ensinando aos nossos adolescentes se a eles tudo é permitido? Qual o limite? Será que um limite de vestimenta seria algo tão opressor assim, a ponto de superar o benefício de mostrar que, em certos ambientes, não posso simplesmente me comportar (e me vestir) da maneira como bem entender?

Vivemos uma era muito perigosa. As escolas saíram de uma época de muita rigidez (que durou décadas) e entraram em uma época quase anárquica. Não há comando por parte dos professores, que são cada vez menos respeitados pelos alunos e, principalmente, pelos pais dos alunos. Os alunos, por sua vez, tem na ponta da língua todos os seus “direitos”, e não aceitam sequer um “dever”, e é assim que a próxima geração está sendo formada: os que tudo podem e nada devem, já que tudo virou opressão, machismo, racismo ou semelhante.

Não sei como vai se resolver essa história, mas tenho certeza de que o desenrolar dos fatos vai ter repercussão muito importante na formação dessas jovens. O discernimento sobre limites, sobre comportamento, está sendo formado agora, e as decisões a respeito das reivindicações delas passarão uma mensagem muito importante.

19 thoughts on “Sobre a polêmica do shortinho em Porto Alegre

  1. Bom dia.
    Concordo em gênero e número.
    Foi exatamente o posicionamento que tomei na discussão familiar.
    Jovens de hoje exigem muitos direitos e poucos deveres…

  2. Boa tarde, eu concordo plenamente que em alguns lugares devemos respeitar a vestimenta, mas vejamos na minha escola. É uma escola pública estadual do RS onde o uniforme escolar não é obrigatório pois muitos alunos não tem condições de pagar e a verba dada pelo governo não é suficiente para fornecer os uniformes para os alunos que necessitam, como também não é suficiente para colocar ventiladores em todas as salas. No entanto, mesmo sem a obrigação de usar uniforme, as meninas são obrigadas a usar calça a partir dos 10 anos ou então não entram na escola. E o único motivo que a direção apresenta para as alunas e os pais é que o short tiraria a atenção dos meninos durante a aula.
    As meninas da minha escola assim como eu estamos fazendo um abaixo-assinado porque vivemos em um país tropical com temperaturas que chegam a 40°c e somos obrigadas a usar calça. Além disso não estamos apenas pedindo o direito de usar short, estamos reenvidicando por liberdade de vestir o que queremos sem sermos julgadas e uma reeducação para os meninos, porque se eles perdem a atenção com pernas o problema não está nas meninas, e sim na sociedade machista. Onde temos que nos vestir de acordo com o julgamento dos homens( e até mesmo de algumas mulheres), pois segundo alguns se estamos de roupas curtas estamos pedindo para sermos menosprezadas ou até estupradas.

  3. As alunas, além do calor, colocam o argumento de que sexualidade não é problema desde que ensine-se aos meninos o respeito. Bem, este respeito se ensina em casa, não na escola. E como a escola não é responsável por ensinar isto ela precisa nivelar a situação impondo regras. As regras portanto são para proteger as alunas e a própria escola, pois se acontecer algo errado por causa do shortinho dentro da escola, adivinha quem irá pagar o pato!????
    Portanto minha opinião é…. Shortinho não!

  4. Baaaita texto!
    Me identifiquei muito no texto, inclusive revi alguns conceitos que “julgava” correto na minha vida “colegial”, parabéns.

  5. o senhor deveria saber como professor de história que tais inconsciências q cita é na verdade um apanhado de construções sociais e q mudam de culta e tempo, o senhor tbm deveria lembrar, antes de toda a sua defesa ao formal e a empresa q a escolha de estudar ou não no tal colégio não é bem simples assim, pois o senhor, como bom liberal, em sua visão curta e maniqueísta, tão binária, q escolhas tem toda uma influencia ambiental tbm, então meu senhor, por favor, como diz o jargão “seja menas”.

  6. Sr. Rodrigo Elsade, achei muito pertinentes suas observações sobre convenções sociais, bom senso e como tudo isto está diretamente relacionado ao nosso modo de se vestir em determinados ambientes. Acredito que tais pontos de vista podem tornar este debate bastante rico.
    Gostaria, entretanto, de fazer uma crítica ao conteúdo do penúltimo parágrafo. É certo que não existe mais aquele temor servil que os alunos tinham de seus professores em décadas passadas, como também não mais existe a subserviência cega dos pais e da sociedade em geral à autoridade dos profissionais da educação, os quais, em tempos não muito remotos, tinham o poder de submeter os alunos a humilhações e torturas psicológicas e até mesmo físicas (como a palmatória e o famigerado “grão de milho”). Também é certo, por outro lado, que seguidamente temos noticia de lamentáveis episódios isolados em que alunos extremamente agressivos e desajustados chegam ao cúmulo da falta de noção e cometem atos violentos contra seus professores, e isso não ocorre apenas em escolas de periferia. No entanto, afirmar que o ambiente escolar entrou em uma era “quase anárquica” a partir destas premissas, bem como sugerir que o fato de uma instituição privada liberar o uso do “shortinho” pode contribuir para fomentar esta situação, é uma visão um tanto exagerada e dramática, na minha também humilde opinião, além de bastante conservadora para quem se diz um liberal. Se prestarmos atenção, até mesmo órgãos públicos vêm flexibilixando suas exigências em relação à vestimenta de seus agentes, sendo bastante comum hoje em dia vermos estagiárias de Tribunais usarem bermudas e shorts para ir trabalhar no verão, o que seria impensável e inaceitável há vinte anos.
    Portanto, creio que a discussão sobre a liberação do uso de shorts nas escolas está ligada à evolução dos usos e costumes de nossa sociedade, sendo que o “conceito” sobre o que é uma vestimenta adequada, neste caso, me parece que deve ser ditado por esta mesma sociedade, e não por leis ou por figuras de autoridade. Em suma: não vai ser o fato de se liberar o uso de shorts que irá abalar o conceito de escola como local onde se deve agir com respeito, responsabilidade e observância à regras sociais.

  7. Parabéns! Foi o comentário dotado de maior lucidez até agora sobre o episódio…

  8. Muito bom o texto e belos exemplos.
    Saber distinguir em qual ocasião deve ou não se vestir de certa maneira. O colégio ao colocar certas restrições nas vestimentas está auxiliando também no futuro dessa juventude oque irão encontrar nas suas profissões futuras. Comportamento e certas formalidades que cada profissão e ocasião permite.

  9. Em primeiro lugar, nenhuma menina vai de bunda de fora, o short cobre tudo que tem que cobrir. Além do mais, nenhuma das meninas do movimento usavam short curtíssimos, eles eram totalmente normais. A intenção de usar short no verão é de não passar calor, se fosse no alto do inverno, realmente, talvez a menina queira “mostrar o rabo”, mas o problema é >>>dela<<<, ela quer mostrar. Todavia, isso não dá o direito de ninguém passar a mão ou se prevalecer sobre elas. Olhar não é problema nenhum, já que todo mundo olha. A gente vê bunda na praia, na propaganda da televisão, nos ensaios fotográficos ou qualquer outro lugar, ninguém tem que fechar os olhos e ignorar, olha quem quer. E se a desculpa do "short não pode" é porque os meninos (e também professores) ficam "distraídos", o problema é deles, ninguém mandou eles olharem.
    Além do mais, as mulheres lutaram por anos para usarem blusas de mangas curtas (não to falando de regata e sim, manga curta) e calças, depois elas lutaram mais anos para usarem um decote pequeno (tipo gola V), bermudas ou saias que mostrassem os joelhos. Na praia elas eram obrigadas a usar maiôs que mais faziam passar calor do que refrescar. Anos mais tarde, as mulheres conseguiram usar shorts e a famosa minissaia, "criada" por Mary Quant, nos anos 50/60, onde as mulheres começaram a mostrar os joelhos e partes das coxas. E a minissaia, na verdade, nem era tão curta assim e seu intuíto era facilitar a locomoção das mulheres, já que as outras roupas impediam-nas de correr atrás de um ônibus com facilidade, por exemplo. Já os shorts, são "versões menores" e mais refrescantes das calças, feitas para que as pessoas não passam calor e nem se sintam desconfortáveis no verão. Nenhum deles, na pesquisa que fiz, diz que o short ou a minissaia foram feitos para "mostrar o rabo", isso foi coisa da sociedade machista, dizendo que as mulheres querem mostrar a bunda. Então, o que adianta a luta de anos e anos, se pessoas irão chegar aqui, em pleno 2016 e falar que o short não pode porque elas querem mostrar a bunda? Ah, por favor. A média de calor em Porto Alegre é de 30 graus no verão, se a minha professora viesse de short, eu também não ia me importa afinal tá calor e a coitada não tem que ficar suando num calorzão. Para mim, todos podem usar short, indiferente se for menina, menino, professor, professora ou qualquer um que for.
    "Ah, mas pra que lutar contra um shortinho se tem causas mais importantes?" Você não tem que desmerecer a causa dos outros, se você acha que tem coisas mais importantes, lute por elas, é isso aí! Como diziam os cartazes na época dos manifestos da passagem "não é só por 20 centavos", isso "não é só por um shortinho", é toda uma filosofia feminista por trás disso. Sendo que, na matéria que saiu no Jornal Hoje, da globo, a menina criadora do projeto afirmou que ela não gosta de usar shorts e estava fazendo aquilo pelo direito das colegas de escola de usarem o que querem. Então, as pessoas tem que se informar bem sobre o caso antes de chegarem dando palpites e criticas ofensivas sobre.

  10. Concordo com este comentário. É essencial educar com limites, respeito e senso de dever. Quem deve ser adulto e ponderar com os jovens são os adultos. Se crianças e jovens sempre forem contemplados em seus desejos , serão candidatos a adultos depressivos, pois haverá decepções certamente.

  11. “(…) todas as alunas que estão reivindicando o uso da vestimenta são totalmente livres para trocar de escola.”
    E a liberdade de questionar e confrontar regras arbitrárias fica onde?
    Se há algo que eu considero duvidoso nesse argumento, é a falácia de achar que a “liberdade individual” é uma solução mágica para todo e qualquer problema. Imagina se alguém diz que as pessoas que têm medo da violência urbanas são “totalmente livres para trocar de país”? Ah, não é necessário nem imaginar: já tem gente dizendo isso mesmo, achando que é assim tão fácil. Podem argumentar que isso é uma analogia extrema e de duvidosa honestidade intelectual, mas não está longe do que o texto faz, quando compara um adolescente em um colégio com um atendente de consultório médico.
    No mais, é meio tolo achar que lutar contra imposições sociais se limita a uma questão moral e de “limites”. O fato é, achar que um short curto por si só é um desrespeito JÁ É uma forma de imposição social, e as meninas têm total liberdade de confrontar isso. Esse tipo de regra não escrita precisa, antes de qualquer coisa, fazer sentido. Regras precisam ter um propósito, e muitas vezes, regras como essa apenas reforçam um pensamento preconcebido que é a única coisa que reforça essa regra, em um círculo vicioso de julgamento e preconceito. Afinal, por que ninguém defenderia que uma professora use short curto? O respeito mora onde? Na roupa ou no caráter? Talvez seja esse tipo de prejulgamento que esteja por trás da “falta de limites” que nossos jovens aprendam com os pais…

  12. CONCORDO PLENAMENTE COM TUDO QUE FOI EXPLANADO NO TEXTO.
    NESTE CASO E EM TANTOS OUTROS QUE OBSERVO,AS ADOLESCENTES ESTÃO SEM LIMITES EM CASA E AGORA ,QUEREM FAZER VALER O USO DA REBELDIA NOS ESPAÇOS EM QUE SE ENCONTRAM..
    CREIO QUE ,QUEM TEM QUE TOMAR CERTAS ATITUDES COM OS FILHOS ,SÃO OS PAIS,MAS SE ELES PERDERAM O FREIO ,DENTRO DA ESCOLA ELES TERÃO QUE ACATAR AS REGRAS E ATENDER AOS LIMITES IMPOSTOS,POIS SE ASSIM NÃO QUISEREM,**MUDEM-SE PARA ONDE AS ACEITEM **

  13. Olá, professor.

    Embora eu esteja muito orgulhosa por ver meninas tão novas já lutando por serem respeitadas e clamando por uma educação que prepare os anchietanos para o mundo real (você leu o manifesto?), achei muito bem colocada a sua visão acerca das convenções sociais e dress code.
    Seu texto só me perdeu no penúltimo parágrafo, onde você se contradiz como liberal e se descredibiliza como professor de história dizendo que “é assim que a próxima geração está sendo formada: os que tudo podem e nada devem, já que tudo virou opressão, machismo, racismo ou semelhante.”
    Tudo? Não, professor. Só virou opressão, machismo, racismo ou semelhante o que é opressão, machismo, racismo ou semelhante. E essas coisas, eu te garanto, não passarão!

  14. Li o texto, achei bem interessante e pensei em propor: porque não bermudas para todos os alunos, meninos e meninas? Além de contemplar a igualdade entre os gêneros, resolve a questão do calor e é uma vestimenta mais adequada ao ambiente escolar.

  15. Katia.
    Obrigado por sua opinião.
    Embora tenha achado o texto bom, ele não é de minha autoria.
    Pedi autorização do autor para publicá-lo

    Um abraço

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