Maquiavel 02

- Isabella Smaniotto*

Nicolau Maquiavel é um personagem icônico. Mesmo tendo escrito O Príncipe há quase cinco séculos, a fama de não possuir “papas na língua” ou até mesmo ser imoral e antiético ainda não foi esquecida. Até mesmo influenciou na criação da palavra Maquiavélico, um adjetivo largamente utilizado para caracterizar alguém de caráter duvidoso, capaz de manipular e enganar para adquirir certa vantagem sobre as pessoas. Maquiavel conseguiu chocar através do tempo milhares de leitores com suas colocações como “Os fins justificam os meios” e “É melhor ser temido do que amado.” E, provavelmente, continuará sempre chocando.

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Textos comentando O Príncipe foram amplamente publicados desde o século XVI, mas nenhum pôde negar que, apesar de utilizar técnicas pérfidas e frias, Maquiavel foi um gênio ao analisar a sociedade em que vivia, declinada por conta de um sistema religioso com aspectos quase comerciais. E, ainda, tinha muita coragem ao dizer tudo aquilo que sempre esteve subentendido, mas que ninguém teve intrepidez de assumir.

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Lorenzo de Médici

O Príncipe é como um “manual de boas maneiras” feito sob medida para Lourenzo de Médici. É importante evitar a confusão que a palavra Príncipe pode causar. Maquiavel não se referia ao filho de um rei dos contos de fadas da Disney, tão pouco sua intenção era igual à de Lições de Princesa, de Meg Cabot, que ensina a nova integrante de realeza a como se comportar a uma mesa de jantar real ou na escolha do vestido para o baile de coroação. Maquiavel, ao se ferir a um príncipe, abrange todos os governantes e descreve como obter poder, como se instalar no principado e como não sair mais dele.

Maquiavel poderia até ser considerado maluco, racional ao extremo e calculista até demais, mas é impossível discordar de tudo em sua obra. Um bom exemplo aparece logo na dedicatória e introdução. Enquanto Maquiavel explica o porquê de escrever o livro, e muitas vezes se desculpa dizendo julgar “(…) esta obra indigna da presença de Vossa Magnificência”, ele afirma que a maioria das pessoas ao tentar agradar o príncipe lhe oferece itens caríssimos, mas que ele, desejando, portanto, oferecer um testemunho de sua dedicação, oferece algo de ainda mais valor e estime: o conhecimento.

Maquiavel 01Ele não foi o primeiro a relacionar conhecimento ao bem mais precioso. Antes dele, já na antiguidade grega, filósofos debatiam como obter uma vida de felicidade tendo a morte sempre à espreita. Muitos chegaram à conclusão de que não haveria melhor forma de aproveitar a existência humana do que buscando constantemente conhecimento. E por que a erudição? Simples. Tudo que se recebe na vida pode ser esquecido ou desvalorizado exceto a sabedoria. Algo que aprendemos durante a infância não será esquecido ou se tornará inútil na vida adulta. Maquiavel pretendia “ensinar” ao príncipe modos e valores para ser uma pessoa poderosa, o que não difere da educação que recebemos para, por exemplo, ser uma “boa pessoa”. Ensinam-nos a como nos comportar-nos em um ambiente social e Maquiavel ensina a como conquistar a lealdade do povo. No fundo ambas não se diferem tanto quanto parecem e possuem um valor inestimável, “valendo mais que pedras preciosas e outros ornamentos semelhantes”.

Ele também escreve de forma direta, como menciona no trecho: “Nem ornei esta obra, nem a enchi de frases ricas ou de palavras pomposas e magníficas ou de qualquer embelezamento artificial”. Muito provavelmente por esse motivo a leitura do texto torna-se mais interessante, mesmo que, por vezes, paradoxal. Ele utiliza também inúmeras teorias baseadas em acontecimentos históricos, citando antigos heróis, como caracteriza: “O homem sábio deve sempre seguir as estradas pavimentadas pelos Grandes e imitar aqueles que tiveram maior sucesso, de modo que se ele não alcançar a perfeição, ele pode pelo menos adquirir um pouco de seu sabor.”

É simples. Não é preciso fazer algo completamente inovador, com bases completamente pessoais e revolucionárias. Subir os degraus que “os Grandes” construíram e tentar seguir seus passos é algo a ser levado em consideração e um conselho muito útil, até mesmo na sociedade atual. Esse trecho não deve ser interpretado no sentido de “sempre se repetir o velho”. Não! Por mais importante que seja seguir o caminho da Grandeza, não se pode simplesmente tentar copiar atitudes com um “Ctrl C / Ctrl V”. As épocas são diferentes e as situações as quais tais atos ocorreram nunca vão se repetir. Cabe ao príncipe absorver os princípios e aplicá-los a sua realidade. É seu dever descobrir novos caminhos para aqueles que estão por vir. No futuro, os degraus que ele construiu também servirão de apoio para subida de outros.

Maquiavel 06Em certa parte do texto Maquiavel diz que “É melhor ser temido do que amado” e essa é uma das frases que o tornam tão marcante. É preciso ter certa cautela ao discutir esse trecho. Ser amado retoma algo mais próximo e humano. Contudo, como Maquiavel cita: “Homens são menos cuidadosos sobre ofender aqueles que se fazem amado do que aqueles que se fazem temidos”. É fato. Quando não tememos as consequências de nossos atos agimos sem pensar, afinal, só conhecendo a bondade tendemos a não esperar a maldade. Um príncipe mais distante que causa a impressão de que, se seus súditos agirem de má fé com o mesmo, será fonte de inferno e miséria, no mínimo, mantém as traições ameaçadas. No entanto, há disparidades. Um comandante amado por seus soldados vai derrotar o comandante temido pelos seus soldados em quase todas as batalhas, mesmo que o comandante temido seja menos sujeito a chances arbitrárias. O amor cria um respeito que, por vezes, pode superar a ameaça.

Além desse desfalque, há também a possibilidade de que o medo leve ao ódio. Essa era uma das preocupações de Maquiavel. Causar o temor no povo poderia juntamente causar a ira. Porém, o fator relevante é simples: quem te odeia é capaz de te derrubar? Se a reposta for sim, deve-se fazer tudo para escapar o ódio. Se a resposta for não, não há motivo de preocupação. Afinal, aqueles que não possuem poder, mesmo que nutram o sentimento de repúdio, não podem abalar o príncipe de maneira alguma. São inúteis instantaneamente porque não podem nem ao menos formular palavras de agressão perante o príncipe

O conflito entre “Ser amado ou temido” também pode se conectar com o trecho: “E notem aqui que homens devem ser tratados bondosamente ou definitivamente destruídos, mas não agravados.”. Resumindo, o príncipe não precisa ser necessariamente um carrasco. Ele precisa agradar aqueles que lhe oferecem absoluta lealdade e lhes deve elogios, sempre feitos aos poucos para serem melhores degustados. Porém, se há a necessidade de ofender ou “destruir” alguém, isso deve ser feito de maneira rápida e precisa. É como “cortar o mal pela raiz”. Não se pode dar o direito de revanche ao inimigo. Todos saberão que ao serem íntegros com o príncipe, obterão apenas sua bondade e ao se voltarem contra ele não terão escapatória e serão castigados de forma infalível. Diabólico, mas faz sentido.

Maquiavel 05O autor aconselha também o mandante cultivar certas qualidades que dizem respeito ao seu espírito: ser religioso, íntegro, piedoso, humano e fiel. Engraçado, não? Como características tão inofensivas poderiam nutrir a fama de imoralidade da obra? Não se pode esquecer que o objetivo principal de um príncipe é manter o seu principado. Para preservar o Estado muitas vezes é necessário operar contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião. O príncipe não precisaria necessariamente possuir todas as qualidades se, no entanto, parecesse possuí-las. Maquiavel argumenta que aparentar ser algo é mais importante do que realmente ser, pelo menos em termos de “status social”. Você indica para os outros que tem um comportamento para ganhar as vantagens sociais de possuí-lo, mas não o tem na verdade.

Devo discordar e deixar claro que não é tão vantajoso quanto possa parecer. Muitas vezes nos enganamos com comportamentos ineficientes sem realmente alcançarmos o que queremos. Um bom exemplo são as escolas. O aluno sinaliza ao professor e que está aprendendo e, por isso, termina por não aprender. O professor acredita que o aluno aprende porque está tendo aula, muito embora não tenha julgado se isso é verdade, simplesmente porque é mais cômodo achar que o mesmo está aprendendo, e não dedica mais tanta atenção ao caso. E então, quando se faz necessária a utilização do conhecimento, a matéria que não foi aprendida por comodidade por parte do aluno e professor é demonstrado através da ignorância na resolução do problema.

Um príncipe que pareça possuir tais habilidades recebe um valor social significativo. Porém, na hora em que deverá dar a prova de suas competências, ao falhar cairá no ódio das massas, demonstrando que além de não ter as qualidades que aparentava ter, não possui palavra. Não precisa ser necessariamente as caracteriza que Maquiavel cita. A aparência de algo pode agradar a primeira vista, mas caso se encontre vazio de qualidades verdadeiras não passarão de enfeites inúteis nos momentos de crise.

Vivemos tentando não enxergar o que não gostamos. Maquiavel até mesmo comenta isso enquanto argumenta que a aparência é ainda mais necessária que a virtude. Mesmo que alguém desconfie que tudo não passa de um truque, opta por não aprofundar a suspeita. Tapamos nossos olhos todos os dias para os defeitos de nossa sociedade, mas Maquiavel não o fez. Ele enxergou e concluiu: os homens são essencialmente maus. Ingratos, volúveis, fingidos, dissimulados, avessos ao perigo e gananciosos e ainda “Se esquecem com maior rapidez da morte de um pai que da perda do patrimônio”. Ele observou o lado mais analítico, mais podre e mais escondido do ser humano. E fez disso algo vantajoso para o bem comum

É quase engraçado que tantas pessoas o acusem de antiético. Antiético é fingir não enxergar o que ele descreveu. Claro, a generalização não é uma ferramenta tão eficaz. Há exceções e situações, mas o “jogo de poder” vem se prolongando até os dias de hoje. Nosso instinto faz com que sejamos assim, mas não precisamos, necessariamente ceder sempre a ele.

* Texto vencedor do concurso promovido por este site em junho de 2015.

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