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A fada verde: como o absinto se tornou a bebida mais polêmica da história

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04 de August, 2026
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A fada verde: como o absinto se tornou a bebida mais polêmica da história

post_6a71f9816fdba.jpgPoucas bebidas despertam tanto fascínio quanto o absinto. Ao longo de mais de dois séculos, ele foi apresentado como remédio, celebrado como símbolo da vida boêmia, acusado de provocar loucura, proibido em diversos países e, décadas depois, reabilitado pela ciência. Conhecido como "a fada verde", o destilado atravessou revoluções, guerras, disputas econômicas e movimentos culturais, tornando-se muito mais do que uma simples bebida alcoólica. Sua trajetória revela como ciência, política, interesses comerciais e imaginário popular podem se combinar para criar um dos maiores mitos da história da gastronomia.

A origem do absinto remonta ao final do século XVIII, na pequena cidade de Couvet, na Suíça. Embora existam diferentes versões sobre sua criação, a mais conhecida atribui a fórmula ao médico francês Pierre Ordinaire, refugiado na região durante a Revolução Francesa. Seu preparado consistia na maceração de ervas aromáticas, entre elas a losna (Artemisia absinthium), o anis e o funcho, em álcool de alta graduação. Inicialmente, o produto era comercializado como um medicamento destinado ao tratamento de problemas digestivos e outras enfermidades comuns da época.

post_6a71f9823f736.jpgA bebida logo chamou a atenção de empresários, que perceberam seu potencial comercial. A família Pernod transformou aquela receita artesanal em um destilado produzido em escala industrial, contribuindo decisivamente para sua popularização na França durante o século XIX.

O crescimento do consumo também foi impulsionado pelo Exército francês. Durante as campanhas militares no Norte da África, especialmente na Argélia, soldados recebiam doses de absinto. Acreditava-se que o álcool ajudava na conservação da água e que as ervas possuíam propriedades medicinais capazes de reduzir o risco de algumas doenças tropicais. Ao retornarem à França, esses militares levaram consigo o hábito de consumir a bebida, que rapidamente conquistou cafés, restaurantes e salões da sociedade parisiense.

Na Belle Époque, período marcado pelo intenso florescimento artístico e cultural entre o final do século XIX e o início do século XX, o absinto tornou-se um verdadeiro símbolo da vida urbana francesa. Por volta das cinco horas da tarde, cafés de Paris reuniam clientes para a tradicional L'heure verte — "a hora verde" — momento reservado ao ritual de preparação da bebida.

post_6a71f9832b468.jpgEsse ritual fazia parte do encanto do absinto. Uma pequena dose era servida em um copo. Sobre ele colocava-se uma colher perfurada sustentando um cubo de açúcar. Lentamente, água gelada era despejada sobre o açúcar até misturar-se ao destilado. O líquido transparente adquiria então uma coloração esbranquiçada e opalescente, fenômeno conhecido como louche, provocado pelos óleos essenciais presentes nas ervas. O efeito visual contribuía para reforçar a aura de mistério que cercava a bebida.

Não demorou para que o absinto conquistasse também o universo das artes. Pintores, escritores e poetas passaram a frequentar cafés onde a bebida era servida diariamente. Nomes como Vincent van Gogh, Henri de Toulouse-Lautrec, Pablo Picasso, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Oscar Wilde foram associados ao consumo do destilado. Essa proximidade entre o absinto e alguns dos maiores artistas da época fortaleceu a crença de que a bebida possuía propriedades capazes de estimular a criatividade e ampliar a imaginação.

Foi justamente nesse ambiente que nasceu o mito da "fada verde". A expressão passou a representar não apenas a característica coloração da bebida, mas também a ideia de que ela conduziria seus apreciadores a estados de inspiração quase sobrenaturais.

Entretanto, à medida que sua popularidade crescia, também aumentavam as críticas.

post_6a71f9812d16c.jpgMédicos, religiosos e movimentos moralistas passaram a responsabilizar o absinto por uma série de problemas sociais. Surgiram relatos afirmando que a bebida provocava alucinações, agressividade, degeneração mental e comportamentos violentos. A principal suspeita recaía sobre a tujona, um composto natural presente na losna.

Hoje se sabe que a tujona realmente atua sobre o sistema nervoso quando ingerida em doses elevadas. No entanto, análises realizadas em garrafas históricas demonstraram que os níveis presentes no absinto tradicional eram muito inferiores aos necessários para produzir os efeitos extraordinários descritos na época. Grande parte dos sintomas atribuídos à bebida pode ser explicada pelo seu elevado teor alcoólico, que frequentemente ultrapassava 70%, além da existência de versões adulteradas produzidas clandestinamente, muitas delas contendo impurezas perigosas.

Outro fator importante ajudou a alimentar a campanha contra o absinto: a recuperação da indústria do vinho.

Na segunda metade do século XIX, os vinhedos europeus enfrentaram uma das maiores crises de sua história. Um pequeno inseto conhecido como filoxera devastou milhões de videiras, reduzindo drasticamente a produção de vinho na França e em outros países. Durante esse período, o absinto ganhou espaço entre os consumidores.

Quando a viticultura conseguiu se recuperar graças ao enxerto de videiras europeias sobre raízes americanas resistentes à praga, o destilado verde já havia se transformado em um forte concorrente comercial. Muitos historiadores apontam que produtores de vinho participaram ativamente das campanhas que buscavam associar o absinto à decadência moral e aos problemas de saúde pública.

O episódio decisivo ocorreu em 1905, quando uma tragédia familiar na Suíça ganhou ampla repercussão internacional. Os jornais destacaram que o principal envolvido havia consumido absinto antes do ocorrido, embora também tivesse ingerido grandes quantidades de vinho, conhaque e outras bebidas alcoólicas ao longo do dia. A narrativa construída pela imprensa acabou transformando o absinto no principal responsável pelo episódio, fortalecendo uma campanha que já vinha sendo conduzida havia anos.

A pressão popular aumentou rapidamente. Nos anos seguintes, Suíça, França, Estados Unidos e diversos outros países proibiram a fabricação e a comercialização da bebida. A "fada verde" desapareceu das prateleiras durante grande parte do século XX.

post_6a71fac6f31d6.jpgO retorno começou apenas nas últimas décadas, quando estudos científicos revisaram antigas pesquisas e reavaliaram a composição química do absinto. As análises demonstraram que a fama da tujona havia sido amplamente exagerada e que não existiam evidências de que a bebida provocasse alucinações nas concentrações tradicionalmente utilizadas.

Com base nessas conclusões, diversos países voltaram a autorizar sua produção, estabelecendo limites rigorosos para a concentração de tujona e exigindo elevados padrões de qualidade.

Curiosamente, o processo de fabricação permanece muito próximo daquele desenvolvido há mais de duzentos anos. A produção inicia com um álcool neutro de elevada pureza, ao qual são adicionadas ervas como losna, anis e funcho. Após um cuidadoso processo de destilação, algumas receitas recebem uma segunda infusão de ervas frescas, responsável pela coloração verde natural característica dos melhores absintos. Ao contrário do que muitos imaginam, essa tonalidade não depende de corantes artificiais, mas da clorofila presente nas plantas.

Hoje, França, Suíça, República Tcheca, Espanha e diversos outros países produzem absintos reconhecidos internacionalmente. A bebida voltou ao mercado não como um elixir misterioso ou uma substância capaz de provocar experiências sobrenaturais, mas como um patrimônio histórico da gastronomia europeia.

Mais do que uma bebida, o absinto tornou-se um retrato de seu tempo. Sua ascensão acompanhou o entusiasmo da Belle Époque; sua queda refletiu o medo, o moralismo e os interesses econômicos do início do século XX; seu retorno foi resultado do avanço da pesquisa científica. A história da "fada verde" demonstra que, muitas vezes, as lendas mais duradouras não surgem apenas dos fatos, mas da maneira como cada geração escolhe interpretá-los.

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