Professor Nei Nordin
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História

As batalhas de memórias sobre 1964

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01 de April, 2026
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As batalhas de memórias sobre 1964

Nei Nordin

 

Quem decide percorrer os anos de duração de uma graduação em História aprende que a memória coletiva é um elemento chave para a formação da cidadania, identidade e todos os demais fatores implicados na construção de uma sociedade justa e democrática. A próxima coisa que se aprende ali é que a memória histórica até pode ser um fenômeno espontâneo, que permeia o tecido social, mas que também é material altamente manipulável e arena de acirradas disputas entre os diversos interesses latentes numa sociedade.

post_69cd5ff07f285.jpgEm especial a memória coletiva sobre os eventos de 1964 e os vinte anos que se seguiram é um campo de disputa permanente. Longe de ser um consenso histórico estabilizado, ela é constantemente reinterpretada, mobilizada e, em certos casos, instrumentalizada por diferentes grupos políticos e sociais. Esse processo revela que lembrar não é apenas um ato passivo de recuperação do passado, mas também uma forma ativa de construir sentidos no presente.

Em 1964 ocorreu a deposição do presidente João Goulart, seguida da instauração de um regime militar que duraria até 1985. Ao longo dessas duas décadas, o país viveu uma ciranda de repressão política, censura e perseguição a opositores até fases de abertura gradual. A memória desses eventos, no entanto, não é homogênea. Ela varia conforme a posição política, a experiência vivida e, principalmente, os interesses contemporâneos de quem a evoca.

A esquerda considera que a preservação de uma memória hiperdimensionada da ditadura é peça fundamental de seu arsenal teórico, uma vez que se apega culturalmente em um modus operandi que necessita que hajam oprimidos, minorias, vencidos pra justificar sua ação revolucionária. Isso não significa que parte deste segmento não atue motivado pelo compromisso com a verdade histórica como também um alerta permanente sobre os riscos de rupturas democráticas. A lembrança das práticas de tortura, desaparecimentos forçados e supressão de liberdades civis funciona como um elemento mobilizador necessário, mas que igualmente é passível de sofre uso político dessa memória.

Ao associar práticas autoritárias do passado a discursos e atitudes contemporâneas, parte da esquerda busca estabelecer paralelos que reforcem a necessidade de vigilância contra ameaças que podem ser tanto contra a democracia quanto contra seu expectro político.

post_69cd7fa6aee72.jpgÉ nesse sentido que se insere a fala do ator Wagner Moura, que afirmou publicamente em uma premiação, que “a ditadura ainda é uma ferida aberta”. A frase sintetiza uma percepção presente em parte da sociedade, especialmente entre aqueles que defendem a necessidade de manter viva a memória das violações ocorridas no período. No entanto, essa afirmação também merece questionamento. Para as gerações mais jovens, que não viveram o regime militar e muitas vezes não cultivam uma memória direta ou mesmo familiar desse período, até que ponto essa “ferida” é de fato sentida ou experimentada? Há, nesse caso, um esforço ativo de manipulação de memória, no qual figuras públicas como o ator desempenham um papel relevante. Sua fala pode ser interpretada não apenas como um diagnóstico, mas como uma tentativa de moldar a percepção coletiva, reforçando a ideia de permanência do trauma histórico como forma de influenciar o debate político contemporâneo.

É inegável que há lacunas no processo de justiça de transição no Brasil, especialmente quando comparado a outros países da América Latina. Por outro, há quem argumente que a constante evocação desse período pode, em certos contextos, servir como recurso retórico para deslegitimar adversários políticos. Ao caracterizar opositores como “fascistas” ou herdeiros diretos da ditadura, parte do debate público corre-se o risco de simplificar realidades complexas e reduzir o espaço para o diálogo.

post_69cd5ff0ae67f.jpgSetores da direita, por sua vez, constroem uma memória alternativa sobre 1964. Para esses grupos, o movimento que levou os militares ao poder não foi um golpe, mas uma intervenção necessária para impedir a implantação de um regime comunista no país. Essa interpretação enfatiza o contexto da Guerra Fria e o temor de que o Brasil pudesse seguir o caminho de outras nações que adotaram regimes alinhados ao bloco soviético. Nessa narrativa, o regime militar é frequentemente apresentado como um período de ordem, crescimento econômico, salvação e combate à subversão.

Essa visão, no entanto, também envolve processos de seleção e omissão. Ao minimizar ou negar a ocorrência de tortura e repressão sistemática, parte da direita contribui para uma memória que desconsidera evidências amplamente documentadas por comissões da verdade, historiadores e testemunhos de vítimas. Além disso, a recusa em reconhecer o caráter autoritário do regime dificulta a construção de um consenso mínimo sobre os limites da ação estatal em uma democracia.

A disputa entre essas narrativas revela que a memória coletiva não é apenas sobre o passado, mas sobre o presente e o futuro. Tanto à esquerda quanto à direita, há interesses políticos em moldar a percepção dos acontecimentos de 1964. Para a esquerda, manter viva a memória da ditadura pode fortalecer agendas relacionadas à defesa dos direitos humanos e à crítica de tendências autoritárias. Para a direita, reinterpretar ou relativizar esse período pode servir para legitimar determinadas posições políticas e contestar acusações de autoritarismo.

O problema não está necessariamente no fato de que diferentes grupos tenham interpretações distintas do passado, mas na forma como essas interpretações são utilizadas. Quando a memória se torna uma ferramenta de polarização extrema, ela pode obscurecer a complexidade histórica e dificultar a construção de uma cultura política baseada no diálogo e no reconhecimento mútuo.

Uma abordagem mais equilibrada exige reconhecer que o regime instaurado em 1964 teve, sim, características autoritárias e promoveu violações de direitos humanos, ao mesmo tempo em que compreende o contexto histórico que levou parte da sociedade a apoiar sua implementação. Também implica admitir que o uso político da memória é inevitável, mas deve ser feito com responsabilidade, evitando simplificações e generalizações que empobrecem o debate público.

post_69cd5ff0c28fa.jpgA questão central, portanto, não é apenas se a ditadura ainda é uma “ferida aberta”, mas como o Brasil escolhe lidar com essa ferida. Ignorá-la ou negá-la não contribui para sua cicatrização. Por outro lado, mantê-la constantemente aberta como instrumento de disputa política também pode impedir uma elaboração mais madura do passado. O desafio está em construir uma memória coletiva que seja capaz de reconhecer os erros, honrar as vítimas e, ao mesmo tempo, promover um debate político menos marcado pela desconfiança e pela radicalização.

Em última instância, a forma como o Brasil se lembra de 1964 diz muito sobre o tipo de sociedade que deseja ser. Uma sociedade que enfrenta seu passado com honestidade tem mais condições de fortalecer suas instituições democráticas. Já uma sociedade que transforma a memória em arma corre o risco de perpetuar divisões que dificultam a construção de um futuro comum.

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