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Literatura

Por que ainda devemos ler Nelson Rodrigues

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14 de February, 2026
Por que ainda devemos ler Nelson Rodrigues

post_698fe98e61e4e.jpegMais do que nunca, revisitar os textos de Nelson Rodrigues não é apenas um exercício de nostalgia, mas de lucidez. Não se trata de olhar para trás com saudade, e sim olhar para dentro com coragem. Em tempos marcados por discursos superficiais, moralismos apressados e identidades fragilizadas, sua obra continua operando como um espelho incômodo, daqueles que não embelezam nem perdoam. Ela expõe a distância entre aquilo que proclamamos ser e aquilo que, silenciosamente, somos. Num mundo saturado de opiniões rápidas e certezas fáceis, Nelson nos obriga a desacelerar e encarar zonas obscuras da experiência humana que nos esforçaçmos desesperadamente por manter ocultas. Todo um sistema de autoengano, vaidade moral, desejos inconfessáveis e as pequenas misérias cotidianas.

E exatamente por isso sua leitura se faz tão necessária. Porque ela rompe o conforto das narrativas simplificadoras e devolve complexidade ao humano. Ler Nelson é aceitar que não somos lineares nem transparentes, que convivemos com contradições que não se resolvem facilmente. Seus textos não oferecem refúgio, oferecem revelação. Ao nos colocar diante de personagens que erram, fingem, desejam, caem e continuam vivendo, ele nos conduz a um reconhecimento silencioso: também somos feitos dessa matéria imperfeita. Confrontar Nelson Rodrigues é, portanto, confrontar a si mesmo: o humano em sua forma mais crua, contraditória, por vezes patética, mas também capaz de grandeza, lucidez e verdade.

 

O cronista da alma humana

Nelson Rodrigues nunca escreveu sobre heróis; escreveu sobre gente comum. É justamente aí que reside sua força. Seus personagens vivem em casas modestas, frequentam salas de jantar silenciosas, convivem com pequenas frustrações e desejos secretos. No entanto, dentro dessas vidas aparentemente banais, desenrolam-se tragédias profundas. Ele compreendeu algo que muitos preferem ignorar: o drama humano não nasce apenas de grandes eventos, mas das tensões invisíveis do cotidiano.

post_698fe98e0f7be.jpegAo expor aquilo que a sociedade prefere esconder (adultério, culpa, vergonha, ressentimento, obsessões) Nelson não procurava chocar gratuitamente. Seu gesto era quase clínico. Ele retirava as máscaras sociais e revelava a fragilidade moral que sustenta a vida comum. Ler sua obra é perceber que o ser humano não é coerente, não é puro, não é transparente. Somos feitos de contradições e Nelson teve a coragem de olhar de frente para elas.

Essa capacidade de penetrar na psicologia humana faz com que seus textos permaneçam vivos. O leitor não encontra apenas personagens; encontra a si mesmo, seus próprios conflitos, suas próprias ambiguidades. E essa identificação, por vezes desconfortável, é justamente o que transforma a leitura em experiência profunda.

 

A atualidade do desconforto

Há escritores que envelhecem porque escreveram para responder às urgências de seu tempo. Nelson Rodrigues escreveu sobre algo mais permanente: a condição humana. Por isso, sua obra continua inquietante. O leitor contemporâneo reconhece nas suas histórias os mesmos dilemas morais, os mesmos conflitos entre desejo e dever, entre aparência e verdade, entre o que se vive e o que se finge viver.

post_698fe98f92f02.jpegVivemos numa época que valoriza a exibição constante, a construção de imagens e a busca por aprovação social. Nesse cenário, a literatura de Nelson Rodrigues atua como antídoto. Ele não permite que o leitor se esconda atrás de discursos confortáveis. Seus textos nos lembram que a vida interior é mais complexa do que qualquer narrativa pública e que o ser humano frequentemente desconhece a si mesmo.

O desconforto que surge da leitura não é sinal de inadequação da obra, mas de sua força. Livros que apenas confirmam o que já pensamos não nos transformam. Nelson incomoda porque revela aquilo que preferiríamos ignorar. E essa revelação continua necessária

 

Contra a hipocrisia coletiva

Uma das marcas centrais da obra rodriguiana é a denúncia da hipocrisia social. Nele a sociedade é vista como um grande palco onde cada indivíduo desempenha papéis moralmente aceitáveis, enquanto esconde desejos, medos e contradições. Sua literatura desmonta virtudes proclamadas e mostra a distância entre o discurso e a prática.

post_698fe98f25841.jpegEle não atacava apenas indivíduos, mas as estruturas mais fundamentais da civilização: a família idealizada, a moral rígida, a reputação social. Ao revelar as fissuras por trás dessas construções, Nelson não destruía valores, mas sim expunha sua fragilidade. E ao fazer isso, convidava o leitor a uma reflexão incômoda: até que ponto nossas certezas morais são autênticas, e até que ponto são apenas convenções repetidas?

Num tempo em que discursos públicos frequentemente substituem a realidade e a aparência vale mais do que a substância, a crítica rodriguiana permanece atual. Ler Nelson é exercitar um olhar menos ingênuo sobre a sociedade e também sobre si mesmo.

 

A linguagem que permanece viva

Poucos escritores brasileiros criaram uma linguagem tão própria e reconhecível. Nelson escrevia com precisão quase cirúrgica. Suas frases são diretas, secas, por vezes brutais, mas carregadas de intensidade. Ele não ornamenta, não suaviza, não disfarça. Sua escrita busca atingir, revelar, desnudar.

Essa economia verbal dá aos seus textos uma força rara. Cada frase parece carregar mais do que diz explicitamente. Há ironia, tragédia, humor sombrio. A linguagem rodriguiana não pretende ser bela no sentido convencional; pretende ser verdadeira. E é justamente por isso que permanece viva.

Além disso, sua escrita conserva uma oralidade pulsante. Mesmo décadas depois, seus diálogos soam naturais, tensos, humanos. O leitor não sente distância histórica; sente proximidade emocional. E essa proximidade mantém sua obra acessível às novas gerações.

 

Uma leitura de si mesmo

No fim, a permanência de Nelson Rodrigues não se explica apenas por sua relevância literária ou histórica, mas por sua capacidade de atravessar o tempo e continuar dialogando com o leitor. Seus textos funcionam como um espelho moral: perturbador, às vezes cruel, mas profundamente humano.

Ao lê-lo, percebemos que não somos inteiramente racionais, nem inteiramente coerentes. Somos feitos de desejos conflitantes, de ilusões necessárias, de pequenas fraquezas. Nelson Rodrigues não oferece consolo fácil, mas oferece lucidez: e lucidez é uma forma rara de liberdade.

Não se trata, portanto, de voltar ao passado. Trata-se de compreender melhor o presente. É reconhecer as fissuras da condição humana e aceitar que a verdade sobre nós mesmos nem sempre é confortável, mas é sempre reveladora.

 

“O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.”

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