A Partida da Morte: A Realidade por Trás do Mito de Kiev

Em 9 de agosto de 1942, em uma Kiev ocupada e devastada pela Wehrmacht, ocorreu um dos eventos mais emblemáticos da história do esporte, que ficaria mundialmente conhecido como “A Partida da Morte”. No entanto, a verdadeira história desse confronto entre o FC Start e o Flakelf é uma trama complexa onde a bravura real dos jogadores se mistura a décadas de romantização e propaganda estatal.

A base da história permanece inalterada e verídica: o FC Start era, de fato, um time formado em meio à miséria da ocupação. A iniciativa partiu de Nikolai Trusevich, o goleiro do Dínamo de Kiev, que encontrou emprego na padaria estatal número 3. O dono da padaria, um fã de futebol, permitiu que Trusevich recrutasse antigos companheiros do Dínamo e alguns rivais do FC Lokomotiv para trabalharem lá e jogarem futebol nas horas vagas, garantindo-lhes alguma alimentação e proteção contra a deportação para a Alemanha.

A equipe ucraniana provou ser imbatível. Ao longo do verão de 1942, o FC Start atropelou times de guarnições húngaras, romenas e alemãs. A tensão culminou nos jogos contra o Flakelf, a equipe da Luftwaffe (Força Aérea Alemã), considerada a elite atlética dos ocupantes. Após uma vitória inicial por 5 a 1, uma revanche foi marcada para 9 de agosto no Estádio Zenit.

É neste ponto que a história se bifurca entre os fatos documentados e a “lenda canônica” promovida pela União Soviética após a guerra.

A versão popular afirma que um oficial da SS entrou no vestiário antes do jogo e exigiu a saudação nazista (“Heil Hitler”), sendo respondido desafiadoramente pelos ucranianos com o grito soviético de esporte, “Fizculthura!”. Historiadores modernos e relatos de sobreviventes, como o de Makar Goncharenko (o artilheiro do time), contestam essa dramaticidade. Embora o ambiente fosse hostil e a arbitragem (feita por um oficial alemão) fosse suspeita, não há provas concretas do ultimato de morte no vestiário ou durante o intervalo. A ideia de que “se vencessem, morreriam imediatamente” parece ser uma construção posterior para elevar a tensão narrativa.

O jogo em si foi brutal. O FC Start venceu por 5 a 3, superando o jogo físico e violento dos alemães. Contudo, ao contrário do mito que diz que os jogadores foram executados logo após o apito final — ou fuzilados ainda com os uniformes do jogo —, a realidade é que o FC Start continuou existindo. De fato, registros históricos mostram que eles jogaram mais uma partida em 16 de agosto, vencendo o Rukh por 8 a 0. Foi somente após essa vitória, cerca de nove dias depois da famosa “Partida da Morte”, que a Gestapo agiu.

Em 18 de agosto, os jogadores foram presos em seu local de trabalho na padaria. A tragédia que se seguiu é real, mas suas motivações são debatidas. Nikolai Korotkykh morreu sob tortura na sede da Gestapo, mas documentos indicam que sua morte foi motivada pela descoberta de que ele era um oficial ativo da NKVD (a polícia secreta soviética), e não apenas pelo resultado do futebol.

Os outros craques — Trusevich, Kuzmenko e Klymenko — foram enviados para o campo de concentração de Sirets. Lá, sobreviveram por meses em condições desumanas. A execução desses jogadores ocorreu apenas em fevereiro de 1943, seis meses após a partida. Acredita-se que o fuzilamento tenha sido uma represália a um ataque de partizans (resistência soviética) que incendiou uma fábrica próxima, e não uma execução direta planejada no dia do jogo de futebol.

Após a retomada de Kiev pelo Exército Vermelho, a União Soviética percebeu o potencial propagandístico da história. A narrativa foi lapidada para omitir o fato de que os jogadores sobreviveram meses colaborando forçosamente em trabalhos na padaria e no campo, transformando-os em mártires instantâneos do comunismo que “escolheram a morte em troca da vitória”. O heroísmo dos jogadores do FC Start é inegável e sua resistência moral foi gigantesca, mas a versão cinematográfica de um fuzilamento imediato serviu, sobretudo, para criar um mito nacional de resistência inquebrantável contra o fascismo, onde a verdade histórica foi sacrificada em nome da lenda patriótica.

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