Poesia: a História revista a partir de um banco de praça

A História Revista a Partir de Um Banco de Praça. Luis Coronel

Mas afinal,quem dá corda ao relógio da história? Serão, por acaso, os heróis de decantada memória?

Eu pergunto: quem ao homem traz mais digna ventura? O solene parlamentar ou a moça da floricultura?

No árduo frigir dos ovos quem fecunda a alegria? Será o mega investidor ou Joaquim da mercearia?

Quem fez girar as roldanas pra que o tempo não parasse? As togadas excelências ou o plantador de alfaces?

O homem que colhe as uvas e serve tua taça de vinho bem mais faz que as majestades com suas capas de arminho.

O menino que solta pandorgas sob os ventos, nos telhados, importa mais que o inventor de mísseis teleguiados.

A mais simples quituteira de quindins e brigadeiros, conhece melhor seu ofício que arrogantes marketeiros.

Um palhaço entre crianças, com chafariz na gravata, traz mais felicidade ao mundo que todo e qualquer burocrata.

A rua é o berço dos fatos. Ninguém sabe quem tu és. O tempo é o suor na testa do vendedor de picolés.

O chapéu do mestre-cuca é a coroa de um rei. Quem toca sua flauta doce confere ao mundo outras leis.

Os modestos pescadores, ante o sol ou céu nevoento, arrastam o barco da história com remos pesados e lentos.

Dormem em sono de bronze, heróis que a história cultua,

no árido chão cotidiano, os garris varrem as ruas.

Em todo repasse do tempo, nos jornais e microfones, esquecem quem tece o tempo: a gente simples, sem nome.

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