Operação Traíra

33 Anos do ataque da FARC ao posto brasileiro às margens do Rio Traíra.

Bráulio Flores

A Agressão

A fronteira amazônica possui 9 mil quilômetros. Muitas áreas dessa região são compostas de selva inóspita, densamente arborizadas, e devido a isso, abandonadas.

No extremo oeste da região, existia nos anos de 1980, uma lavra da mineradora Paranapanema. No final da década, a empresa decidiu cancelar suas atividades de extração. Esse espaço abandonado acabou violentamente disputado por garimpeiros brasileiros e colombianos. Por esse motivo, foi criado um pequeno destacamento do Exército para proteger a área, enviado pelo Comando de Fronteira do Solimões. O objetivo era neutralizar a atividade ilegal, bem como impedir a incursão de estrangeiros em solo brasileiro. A tropa de 17 homens se instalou às margens do Rio Traíra.

A presença permanente do destacamento brasileiro mostrou muitos resultados, entre eles: a contenção das atividades ilegais, a interrupção da evasão de divisas, com o fim do tráfico de ouro, extraído do Brasil para os cofres colombianos.

Além de prender garimpeiros estrangeiros, a fiscalização militar às margens do Traíra causou prejuízos às FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), uma grande guerrilha comunista que tinha como objetivo derrubar o governo democrático e instalar uma ditadura marxista naquele país. A falta dos recursos, bem como o não uso da área geográfica para descanso, reposição e treinamento, deixou enfurecido o comando local das FARC, denominado Coordenação Guerrilheira Simon Bolivar (CGSB), uma força de valor batalhão, com efetivos de aproximadamente seiscentos combatentes.

Em meados de 1990, o Exército Colombiano defechou uma poderosa ofensiva contra a FARC, ocupando vários de seus territórios e capturando toneladas de cocaína, dinheiro, muito material militar entre outros recursos. A manobra fez com que mais tropas da guerrilha se deslocassem para a fronteira com o Brasil.

Na manhã de 26 de fevereiro de 1991, um grupamento de 40 guerrilheiros, decidiu, da margem colombiana, observar a base brasileira. Sem que fosse detectado, o grupo atravessou o rio e cercou o perímetro. Posicionados, os invasores resolveram atacar a guarnição justamente na hora do almoço. Armados com fuzis AK-47, HK-33 e metralhadoras, os guerrilheiros dispararam contra os brasileiros que estavam distraídos durante a refeição. Um sniper escondido entre as árvores alvejou o soldado Sansão, um dos sentinelas. Segundos depois outro sentinela, o soldado Aldemir, foi mortalmente ferido por fogo de metralhadora. Tiros vinham de todos os lados, atingindo os militares. O soldado Sidimar Moraes levou um balaço no peito e também morreu. O tenente de Freitas levou um tiro no joelho.  Um sargento conseguiu alcançar a metralhadora MAG, mas também acabou alvejado. Na escaramuça, dois garimpeiros colombianos detidos acabaram atingidos. O entrevero durou menos de cinco minutos, deixou 5 mortos, incluindo os garimpeiros e doze feridos. Depois de dominar a situação, o líder guerrilheiro ordenou que todo o equipamento militar, incluindo armas, munições, suprimentos médicos, barcos e os meios de comunicação fossem confiscados.

Somente no dia 1° de março, quando um novo grupamento do Exército chegou a base, foi possível avisar as autoridades brasileiras sobre o ataque.

A Reação

Na tarde de 1° de março, o então Ministro do Exército, General Carlos Tinoco ordenou ao Comando de Operações Terrestres que planejasse uma resposta ao caso. No final da tarde, o presidente Collor ligou para o presidente da Colômbia, Cesar Gaviria, e desse conseguiu autorização para que o Exército Brasileiro entrasse em seu território para buscar e eliminar as forças que haviam violado nossa fronteira. Em seguida o presidente deu ordens para que os militares executassem a Operação Traíra.  A morte de soldados brasileiros e roubo de material bélico, fez dessa uma situação que merecia uma resposta firme e enérgica.

Às 17 horas de 1º de março, o Batalhão de Forças Especiais, estacionado no Rio de Janeiro, recebeu ordens para uma missão especial. O batalhão de F.E. é composto de tropas especializadas em paraquedismo, infiltração, reconhecimento, guerra na selva e contraterrorismo.

A força tática foi dividida em 4 grupamentos, cada um composto de 18 homens. Dois grupos de infiltração, um de armas pesadas e outro de comando. Às 4 horas da manhã de 2 de março, já em Brasília, o grupo recebeu no avião, um envelope lacrado com as ordens emitidas pelo COTER. Sua missão localizar os guerrilheiros, eliminar os grupamentos inimigos e recuperar o equipamento roubado.

Na manhã do dia 2, os forças especiais aterrisaram em Tabatinga. No início da tarde, os grupos táticos adentraram a selva colombiana, seguindo as trilhas dos guerrilheiros. Todo o Comando Militar da Amazônia deu suporte logístico, e de fogo, mas as unidades convencionais não adentraram na Colômbia. Em poucos dias, os Forças Especiais (F.E.) entraram em combate com o primeiro grupo guerrilheiro, matando 6 e capturando outros 8.  Na curva de um rio, os comandos brasileiros surpreenderam outro grupo de guerrilheiros, que foram abatidos durante o combate. Noutra escaramuça, os F.E. identificaram um novo grupo que descia o rio. Identificaram que esse estava embarcado em uma das lanchas brasileiras, além disso, os rebeldes colombianos carregam fuzis FAL 7.62mm e uniformes do Exército Brasileiro.  No breve combate, os guerrilheiros foram capturados e, ao serem revistados foram encontrados pertences de soldados brasileiros. Os interrogados acabaram revelando aos comandos detalhes sobre a disposição da força inimiga na região, sua quantidade e a localização de sua base guerrilheira, que ficava cinco horas rio acima, e mais duas horas de caminhada pela floresta. na ocasião essa base contava com mais de cinquenta guerrilheiros. Todos os capturados foram entregues às autoridades colombianas.

 

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